domingo, 11 de junho de 2017

Quinto ano de "House of Cards" foca em autopreservação política e ascensão ao poder

O quinto ano de "House of Cards" era muito esperado, especialmente após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. Muito comparado ao presidente da vida real, Frank Underwood (Kevin Spacey) voltou em um cenário parecido ao visto, todos os dias, no noticiário: em um clima de insegurança, divisão e protestos. Há, no entanto, coisas que os diferenciam, a começar pelo inegável carisma do presidente democrata da ficção. Underwood, no entanto, mostra, ao longo da temporada, que possui uma característica que Trump parece não ter: autopreservação política.
Depois de criarem o caos e utilizarem os artifícios do terror e da guerra, o casal Underwood começa a temporada enfrentando uma acirrada eleição e tentando superar uma pontual desvantagem, apelando, para isso, a um discurso de ódio e "combate ao inimigo americano", como uma cortina de fumaça para esconder suas reais intenções.
Com um discurso incisivo contra as ameaças de um grupo terrorista, Frank parece se afastar do eleitorado, se "acastelando" na Casa Branca e tomando decisões pouco populares. Claire (Robin Wright), sua esposa e candidata a vice-presidente, no entanto, parece sofre menos os efeitos da reação populares mesmo, nos bastidores, apoiando os planos do marido. Mesmo assim, os dois têm seus planos ameaçados pelo candidato republicano Will Conway (Joel Kinnaman).
Quando a eleição parece perdida, Frank não hesita em, novamente, usar o terror para invalidar parte do pleito e prolongar a disputa eleitoral ao limite, sem pensar na população e levando o país a um período de incertezas. Apelando a manobras absurdamente sujas e restringindo o resultado do pleito a dois estados, o democrata acaba conseguindo a tão sonhada eleição, mas não tem tempo de comemorar.
Depois de eleito, Frank acaba precisando lidar com os "fantasmas" de seu passado e sofrendo os efeitos de seus planos para chegar ao poder. Através de uma investigação jornalística e da perseguição de inimigos políticos, ele acaba, novamente, paralisando o país com seus escândalos. Nesse novo cenário caótico, surge uma figura que, apesar da imensa força, sempre atuava em segundo plano: Claire. A vice-presidente ascende ao poder e chega ao centro do Salão Oval, representando uma esperança e, quem sabe, a maior derrota do marido.
Mesmo parecendo derrotado, Frank mostra, na verdade, que entende de autopreservação política. Com todos os movimentos friamente calculados desde os primeiros escândalos, ele mostra uma impressionante capacidade de lutar e, ao mesmo tempo, planejar uma saída estratégica para manter o poder nas mãos.
"House of Cards" retornou mostrando uma narrativa extremamente bem pensada e coerente, que prende o espectador com ganchos interessantes e uma discussão política assustadoramente atual, mesmo tendo sido elaborada antes de muitos dos acontecimentos do noticiário. Mais do que isso, a série continua estabelecendo um diálogo universal sobre política, inclusive com o Brasil, através de figuras que distorcem os conceitos sobre governar e que colocam seus interesses pessoais acima do coletivo.
O que a série faz melhor, no entanto, e construir personagens. É fascinante acompanhar os arcos dramáticos de Frank e Claire na temporada, caminhando juntos e, ao mesmo tempo, se direcionando aos interesses individuais. Fiel aos planos do marido e sempre um pedestal importante para ele, Claire não hesita em perceber que o cenário pode lhe ser favorável e, mesmo sem insistir abertamente, buscar encaminhar "as peças do tabuleiro" para o Salão Oval. Enquanto isso, o presidente, aparentemente vulnerável ao caos, mostra que sabe exatamente o que faz e, mesmo expondo fragilidades, não perde o controle de tudo, afinal, mais do que a presidência, ele quer mesmo é poder.
Vale prestar atenção, também, a duas figuras que se aproximam do casal Underwood: Mark Usher (Campbell Scott) e Jane Davis (Patricia Clarkson). Demonstrando interesse na vitória política dos protagonistas, claramente, os dois coadjuvantes estão, na verdade, encaminhando seus interesses particulares. Uma cena, em particular, representa isso: na posse de Frank, Usher se posiciona, estrategicamente, em um lugar semelhante ao do protagonista no início da série, quando elaborava seus planos para chegar ao poder.
Focando na autopreservação de Frank e na ascensão ao poder de Claire, que, inclusive, quebra a quarta parede e passa a interagir com o público como o marido, a quinta temporada de "House of Cards" é uma das mais interessantes da série e abre um caminho insuportavelmente curioso para um próximo ano, com um possível embate entre os desejos de poder de ambos. A guerra criada pelo casal, agora, ao que parece, virou um cabo de guerra.

HOUSE OF CARDS (quinta temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ótima

domingo, 14 de maio de 2017

"Once Upon a Time" e outras séries que perderam personagens centrais antes do fim


O anúncio da atriz Jennifer Morrison de deixar a série "Once Upon a Time" depois de seis temporadas pegou muita gente de surpresa. Afinal, como protagonista, a trama sempre se desenvolveu ao redor dela. A notícia foi seguida pela revelação de uma debandada do elenco regular da produção. Depois dela, foram divulgadas as saídas de Rebecca Mader, Ginnifer Goodwin, Josh Dallas, Jared Gilmore e Emilie de Ravin, também considerados centrais para o desenvolvimento da história. Para a sétima temporada, já confirmada pelo canal ABC, que já está com ares de reboot, voltam apenas Lana Parrilla, Robert Carlyle e Colin O´Donoghue.
Pensando nisso, foi inevitável não pensar em outras séries que também perderam personagens importantes antes do fim e que, para o bem ou para o mal, sentiram esses efeitos. Vamos a elas:

1) Grey´s Anatomy

Em sua décima terceira temporada, "Grey´s Anatomy" ainda preserva alguns nomes que estão desde o início, como Ellen Pompeo, Justin Chambers e Chandra Wilson. Mas, a maioria dos personagens que estavam nos primeiros anos da atração já se despediram. Os mais sentidos para o andamento da trama foram Patrick Dempsey (Derek Shepherd) e Sandra Oh (Cristina Yang), que orbitavam ao redor de Meredith (Pompeo). Há mais tempo, Katherine Heigl (Izzie) e T. R. Knight (George) também já tinham "abandonado o barco". Importante durante muito tempo na atração, Sara Ramirez (Callie) também "fez as malas" e deixou o hospital Grey Sloan.

2) The Good Wife

Antes de concluir a transformação da advogada Alicia Florrick (Julianna Margulies), "The Good Wife" perdeu dois personagens muito importantes. Josh Charles, que vivia Will, o grande amor da protagonista, deixou a atração e seu personagem acabou condenado à morte, o que mudou os rumos da série. Archie Panjabi, a investigadora Kalinda, principal amiga e parceira de Alicia, também deixou a cena, dizem, por problemas de bastidores com Julianna Margulies. Depois das saídas, a série continuou ótima, mas algo sempre ficou faltando.

3) Two and a Half Men

Depois de anos como o protagonista da comédia "Two and a Half Men", Charlie Sheen, que interpretava quase que um espelho de si mesmo, foi demitido por problemas com o criador da atração Chuck Lorre. O efeito, para a série, não poderia ter sido mais implacável: Sheen foi substituído pelo ator Ashton Kutcher, que não teve capacidade para segurar a responsabilidade. As mudanças fizeram com que a série perdesse totalmente a graça e o propósito até, finalmente, chegar ao fim. O único momento inspirado dessa nova etapa foi o episódio que marca a saída de Sheen e a entrada do novo protagonista. Em cima da morte de Charlie na trama, o roteiro rendeu boas risadas. Mas, não passou disso!

4) Revenge

Lá no início da série, um misterioso corpo aparece na luxuosa região dos Hamptons, dando a entender que se trata de um dos personagens centrais da história, Daniel Grayson (Josh Bowman). Bom, na ocasião, não era, mas também não poupou a morte do personagem alguns anos depois. Insatisfeito com o desempenho, ainda na terceira temporada, Bowman deu entrevistas em que pedia a morte do personagem. Não demorou muito e, antes do fim da atração, ele deixou a atração do jeito que pediu: com a morte de Daniel.

5) Downton Abbey

A saga da família Crawley começou com mudanças, que envolviam a chegada do novo herdeiro da fortuna do clã, o advogado Matthew (Dan Stevens). O causador de tantas mudanças para a família aristocrata acabou morto na terceira temporada, já que Stevens não renovou contrato e decidiu se aventurar mais no mercado norte-americano de entretenimento. Antes dele, Jessica Brown Findlay (Lady Sybil) também já tinha deixado a atração pelo mesmo motivo. A ala dos empregados do drama de época também perdeu um personagem importante com a saída de Siobhan Finneran, que vivia a amargurada Sarah O´Brien e que deixou a mansão dos Crawley do dia para a noite.

6) Scandal

Após a primeira temporada, que teve apenas sete episódios, Henry Ian Cusick (Stephen Finch) não voltou para o segundo ano da série de Shonda Rhimes. A decisão, conforme foi divulgado, foi tomada em comum acordo, diante do baixo rendimento do amigo da protagonista Olivia Pope (Kerry Washington). Ele acabou fazendo uma participação especial anos depois, em um momento decisivo para a protagonista. A solucionadora de problemas políticos da capital dos Estados Unidos ainda perderia outro amigo importante: Columbus Short (Harrison) não teve o contrato renovado por ser acusado de agredir a esposa e um homem em um restaurante. O "gladiador" de Olivia foi morto na trama.

7) Brothers & Sisters

Ao melhor estilo "novelão", a saga da família Walker durou cinco temporadas, mas não passou ilesa de saídas repentinas do elenco. Emily VanCamp, que depois estrelaria "Revenge", pediu para sair, mesmo sendo uma personagem importante no começo da série. Depois foi a vez de Rob Lowe, que interpretava o marido de Calista Flockhart (Kitty). Por fim, Balthazar Getty (Tommy), que fazia parte do elenco regular desde o início pediu para fazer apenas participações especiais em alguns episódios. Mesmo assim, a série encontrou forças e terminou por cima.

8) The Office

"The Office" foi uma dessas séries de comédia "da moda", que recebia muitos elogios de público e crítica. Assim mesmo, ela não escapou do baque de perder o protagonista Steve Carell, que decidiu deixar o elenco após sete temporadas. A série ainda durou mais dois anos, buscando soluções "caseiras" e adição de personagens para continuar caminhando. Alguns, no entanto, dizem que nunca foi a mesma coisa.

9) Arquivo X

Depois de sete anos, o ator David Duchovny anunciou que deixaria a ficção científica "Arquivo X", série que o tornou mais conhecido nos anos 90. A atração ainda durou mais três temporadas seguidas sem o agente Fox Mulder. Recentemente, Duchovny voltou ao elenco para uma temporada especial, que pode ser considerada o décimo primeiro ano da produção. A retomada foi comemorada e pode render ainda mais frutos.

10) Private Practice

Antes mesmo de ter seu fim confirmado oficialmente, Kate Walsh, a protagonista de "Private Practice", o spin-off de "Grey´s Anatomy", anunciou sua saída da atração. A decisão da atriz veio depois que outro membro do elenco regular, Tim Daly (Pete) foi demitido e anunciou que não voltaria para o sexto ano da série. Ambas as notícias foram determinantes para o fim da atração, que acabou naquela mesma sexta temporada.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Novo programa de Bial opta pelo "talk" e acaba dando "show" com entrevistas

Divulgação/TV Globo
No geral, os talk shows foram feitos para os humoristas brilharem. Nos Estados Unidos, onde o gênero se consagrou, muitos foram e são sucesso, como David Letterman, Jay Leno, Jimmy Fallon, Jimmy Kimmel e James Corden. Por aqui, a moda é mais recente, mesmo com Jô Soares fazendo esse tipo de programa há mais de vinte anos. Com a "aposentadoria" dele, sobraram Danilo Gentili, Fábio Porchat, Marcelo Adnet e, mais recentemente, Tatá Werneck e Gregório Duvivier. O jornalista Pedro Bial se juntou, nesta semana, a esse time, mas já mostrou logo de cara que a proposta dele é outra.
"Conversa com Bial", que estreou na terça-feira (2), a julgar pelos primeiros entrevistados, mostrou que vai "nadar contra a corrente" que privilegia o "show" em vez do "talk". Interessado no material humano que senta ao seu lado, Bial encara o conteúdo como a sua "fórmula de sucesso". Isso ficou claro nas duas primeiras entrevistas, com a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármem Lúcia, e com a cantora Rita Lee.
Com a ministra, o apresentador não fugiu a temas atuais e pertinentes, como corrupção e decisões da Corte em relação à Operação Lava Jato. Com a participação da atriz e escritora Fernanda Torres, a conversa também enveredou para questões relacionadas a ética e ao momento político do Rio de Janeiro. Aspectos pessoais e interessantes da vida de Cármem Lúcia também não fugiram da pauta e a "mineirice" da ministra rendeu bons momentos. Nem mesmo um escorregão em relação à liberdade do ex-ministro José Dirceu, que não foi citada no papo, gravado um dia antes do fato, prejudicou o andamento do programa.
Divulgação/ TV Globo
Promovendo o sucesso de sua autobiografia, Rita Lee, no segundo programa, falou sobre a carreira e lembrou momentos marcantes e curiosos de sua trajetória artística. Sincera como poucos, inclusive no livro, a cantora falou abertamente sobre drogas, escolhas e, é claro, música. Recorrendo a gravações históricas e imperdíveis, a atração fez a artista relembrar de canções e cenas clássicas da carreira de Rita.
É bem verdade que um programa desse formato depende muito do entrevistado, mas "Conversa com Bial" já deixou claro que está interessado em uma bela prosa, que estava fazendo muita falta na televisão, especialmente com a saída do ar dos programas de Marília Gabriela e, em algumas oportunidades, de conversas inspiradas de Jô Soares. De fato, Bial já tinha mostrado, no ano passado, com "Programa com Bial", no GNT, que podia contribuir e muito para boas conversas na televisão.
Não há nem demérito em seguir a linha "show e divertir o público com muitas risadas, como fazem Gentili, Tatá Werneck e Jallon. Bial, no entanto, seguindo o caminho do "talk" ocupa uma lacuna interessante e necessária na TV. Que sua trajetória no formato gere cada vez mais frutos positivos para o telespectador.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Fargo" volta para terceira temporada promissora e sem perder inspiração original

Sempre digo que "Fargo" é uma das séries mais bem escritas e produzidas em exibição na TV. Por conta disso, a produção fez falta na grade de programação do ano passado, mas, a julgar apenas pelo primeiro episódio, esse período maior de espera para a terceira temporada fez bem para a história, que não perdeu a inspiração original e pode render mais um ano excelente para a atração.
Com uma trama diferente a cada temporada, "Fargo" volta com mais uma história originada a partir de um crime nada perfeito. O ponto de partida é o conflito entre os irmãos gêmeos Emmit e Ray Stussy (Ewan McGregor), que vivem vidas opostas. Enquanto Emmit vive uma vida de conforto, beneficiada pela herança da família, Ray é mais modesto e sobrevive de seu trabalho de oficial de condicional. Em busca de dinheiro para comprar um anel para a namorada Nikki (Mary Elizabeth Winstead), Ray procura o irmão no dia da comemoração de 25 anos de casamento dele.
Diante da negativa de Emmit, o gêmeo decide armar um plano para roubar um valioso selo do irmão, também parte da herança da família. Para isso, Ray pede ajuda de Maurice (Scoot McNairy), um dos presos em condicional atendidos por ele. O plano foi armado para não dar errado, mas o bandido acaba perdendo o endereço da casa de Emmit e, então, resolver tentar lembrar do que estava escrito no papel dado por Ray.
Traído pela memória, Maurice vai parar na casa de Ennis (Scott Hylands), o padastro da policial Gloria (Carrie Coon), e, em busca do selo, acaba matando o dono da casa. Quando descobrem a trapalhada de Maurice, Ray e Nikki acabam encontrando um jeito de matá-lo, para impedir que a polícia chegue até eles e, com isso, está dado o pontapé inicial a mais um crime imperfeito da série.
Escrita e dirigida por Noah Hawley, a terceira temporada de "Fargo" se mostra promissora desde os primeiros minutos. A construção do roteiro continua seguindo a linha dos anos anteriores e apresenta uma trama que cresce gradualmente ou, como eu gosto de chamar, é uma história "panela de pressão", que vai concentrando forças até explodir no fim.
As inspirações originais, tiradas do filme de mesmo nome e retratadas na primeira temporada, continuam presentes. É impressionante, aliás, que Hawley consiga, cada vez mais, contar as histórias ao melhor estilo dos irmãos cineastas Joel e Ethan Coen, que levaram "Fargo" aos cinemas anteriormente e, agora, produzem a versão televisiva. Falando da história ou da estética, são facilmente perceptíveis as influências dos Coen em qualquer uma das temporadas, o que ajuda, inclusive, a pontuar o clima da produção.
Sobre as atuações, ainda é muito cedo para qualquer veredito, mas já é possível dizer que Ewan McGregor pode ter a "chance da vida" para mostrar um trabalho mais consistente, diferente do que já fez, especialmente, no cinema. Nas primeiras cenas, pelo menos, ele já mostrou que está disposto a isso. Carrie Coon é outra atriz que pode se destacar na temporada.
"Fargo" demorou, mas voltou reforçando a intenção de continuar sendo uma das grandes séries de TV da atualidade, mesmo que o público em geral ainda não tenha descoberto suas qualidades. Promissor, o terceiro ano tem tudo para se igualar aos outros em qualidade, apresentando mais uma "panela de pressão", que pode explodir a qualquer momento.

FARGO (terceira temporada)

ONDE: FX (Estados Unidos); ainda sem previsão de estreia no Brasil

Rivalidade entre estrelas em "Feud" retrata contradições e lado impiedoso de Hollywood


"Conflitos não se tratam de ódio. Conflitos se tratam de dor". A frase, que aparece vez ou outra ao longo dos episódios de "Feud", a mais nova antologia de Ryan Murphy, resume bem a rivalidade histórica entre duas das grandes estrelas de Hollywood: Joan Crawford e Bette Davis. A primeira temporada da produção, já encerrada nos Estados Unidos e no Brasil, além de contar detalhes sobre a rixa das artistas, acabou indo além e mostrando pontos em comum entre elas, sem contar a exposição de um lado impiedoso de Hollywood com atrizes mais maduras, especialmente na época em que a indústria cinematográfica experimentava o auge do glamour.
Em momentos semelhantes de suas carreiras, Joan (Jessica Lange) e Bette (Susan Sarandon) buscam oportunidades profissionais para se manterem ativas em uma Hollywood que, cada vez mais, valoriza apenas os estereótipos de beleza e juventude. Elas se reúnem para as filmagens de um projeto que pode colocá-las novamente "no jogo": o suspense/terror "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?". A produção, no entanto, se mostra tensa desde a assinatura dos contratos das atrizes, que não admitem serem ofuscadas por qualquer brilho rival.
Comandadas por Robert Aldrich (Alfred Molina), as filmagens elevam os níveis de tensão e rivalidade entre as atrizes, que, em determinado momento, até tentam superar os problemas em prol do sucesso do filme. O estúdio, no entanto, comandado por Jack Warner (Stanley Tucci), lucra mais com publicidade com a briga das atrizes e passa a incentivar a disputa, inclusive alimentando a imprensa de celebridades com comentários maldosos das estrelas.
O sucesso de "Baby Jane" poderia encerrar a rixa entre as atrizes, certo? Errado! O conflito chega ao ápice quando Bette Davis é indicada ao Oscar pelo papel, em 1963, mas Joan Crawford sequer é lembrada pela Academia. A partir daí, a atriz ignorada, além de fazer campanha contra a colega de elenco em Hollywood, também convence outras duas atrizes indicadas naquele ano a não irem à premiação. O resultado disso é que, quando anunciada a vitória de Anne Bancroft (Serinda Swan), quem sobe ao palco para receber a estatueta é Joan, para desespero da rival.
Mesmo com a trajetória bem sucedida de "Baby Jane", Joan e Bette acabam frustradas com os caminhos que não se abriram para elas. As duas permanecem ignoradas pela mesma Hollywood que as colocou no "Olimpo", fazendo com que cada uma reaja de uma maneira, inclusive, criando problemas que interferem em suas relações com amigos e familiares.
Quem conhece apenas um breve resumo da histórica rivalidade das atrizes pode pensar que o enredo se trata somente de superficialidade, ego e vaidade. Isso, é claro, está presente, mas os roteiros de "Feud" mostram aspectos mais profundos dessa rixa. A série acaba mostrando o lado cruel e impiedoso de Hollywood, que é capaz de alçar artistas ao estrelato, mas, ao menor sinal de maturidade, os descarta sem levar o talento em consideração. Isso ainda era mais evidente no auge da indústria, entre os anos 40 e 60, quando o glamour ainda era um dos "motores" fundamentais do cinema.
"Feud" também mostrou que o conflito entre as atrizes nada tinha a ver com ódio, e sim com o momento semelhante pelo qual as atrizes passavam. Com ambas tentando uma "retomada" na carreira, Joan e Bette rivalizavam quase que por "sobrevivência", para que pudessem se manter dominantes naquele meio e com medo que uma superasse a outra, sentimentos esses alimentados pela implacável Hollywood. No fim, havia até admiração entre as duas estrelas, que poderiam ter sido amigas, mas se deixaram influenciar por uma "dor" que só fez bem para a indústria.
As qualidades no roteiro e na produção de "Feud" só reforçam o amadurecimento de Ryan Murphy, que, ao longo dos anos, foi mostrando capacidade para criar séries interessantes e com profundidade, muito diferentes de suas primeiras produções. Ponto para ele, que já tinha acertado bonito com "American Crime Story". Também é preciso frisar o trabalho impecável do elenco, especialmente de Susan Sarandon e Jessica Lange, impecáveis e dignas de qualquer prêmio que possa vir neste ano. Coadjuvantes como Alfred Molina, Stanley Tucci, Judy Davis e Catherine Zeta-Jones reforçam, ainda mais, as qualidades da produção.
Com uma história de conflito diferente a cada temporada, "Feud" já se firmou, em seu primeiro ano, como uma das ótimas produções no ar atualmente. A rixa entre duas grandes estrelas de Hollywood abre um caminho fértil para a próxima temporada, que vai falar sobre a realeza britânica e os problemas conjugais entre o Príncipe Charles e a Princesa Diana. Se seguir os passos de Joan e Bette, será um ano imperdível.

FEUD: BETTE AND JOAN (primeira temporada)

ONDE: FX (Estados Unidos) e Fox Premiun (Brasil)

COTAÇÃO: ótima

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Bates Motel" chega ao fim respeitando "Psicose", mas indo muito além da trama original


Não havia muitos segredos, já que a trama do filme e do livro "Psicose" é uma das mais conhecidas da história do entretenimento. Isso complicava ainda mais a tarefa de recriar esse universo, mas, agora que já foi encerrada, é possível dizer que "Bates Motel", série que funcionava como um prelúdio da original, cumpriu com louvor a tarefa dada. Mais do que isso, sempre com respeito à história-base, a produção soube caminhar com as próprias pernas e ir muito além do mostrado anteriormente.
Na quinta e última temporada da série, que terminou na última segunda-feira (24), finalmente os espectadores viram a história chegar aos fatos retratados da obra literária e no clássico de Alfred Hitchcock. Depois da morte de Norma (Vera Farmiga), Norman (Freddie Highmore) se isola, cada vez mais, em seu casarão e, por conta de seus problemas mentais, passa os dias acreditando ainda estar na presença da mãe.
Solitário, Norman conhece Madeleine (Isabelle McNally), a dona de uma loja na cidade. Casada com Sam (Austin Nichols), a jovem também sofre por estar sempre sozinha, por conta das viagens do marido, e também se empolga com a amizade do dono do Bates Motel. Mas, Norman, na verdade, se sente atraído por ela por conta da semelhança física com Norma, o que faz com que a outra metade de sua personalidade se sinta ameaçada.
Ao receber Marion Crane (Rihanna) como hóspede em seu motel, Norman descobre que ela é amante de Sam e a história chega, então, à clássica "cena do chuveiro". Ao contrário da versão original, no entanto, Marion se salva. A vítima da vez é Sam, que não escapa de Noman enquanto tomava banho no quarto da amante.
O fim da temporada também mostrou o ápice da loucura de Norman, com momentos mais constantes de perda de consciência do personagem. Acreditando ser Norma, o jovem tenta se livrar da prisão, por conta de uma série de assassinatos cometidos, e ainda enfrenta o espírito de vingança de Alex Romero (Nestor Carbonell), que foge da cadeia para fazer Norman pagar pela morte de Norma. 
No fim, em um "encontro" familiar, Norman acaba sendo morto pelo irmão, Dylan (Max Thieriot), que tenta se defender de um ataque assassino do protagonista. A morte, ali, representa o desfecho ideal para ele, que, finalmente, pode "estar" no mesmo lugar que Norma.
Sem períodos de menor interesse, pode-se dizer que "Bates Motel" sempre se mostrou interessante e nunca criou "barrigas" ou momentos desconexos do contexto original. O bom roteiro construiu temporadas bem amarradas, que souberam abrir caminho para os aguardados momentos retratados no livro e no filme originais. Na difícil tarefa de contar novamente uma história já bem conhecida, a série não fez feio e soube respeitar as coerências do que já existia, mas, ao mesmo tempo, não se furtou em criar novos momentos e desfechos para a trama.
O mais interessante foi a construção do relacionamento entre Norman e Norma, explorado com sutileza e, ao mesmo tempo, muito impacto pelo roteiro. A série mostrou a proteção da mãe em relação ao filho com problemas mentais, mas, em paralelo, como ambos se "alimentavam" de uma forma doentia daquele tipo de relação, que culminou na morte de Norma e nos momentos em que Norman assumia a personalidade dela.
Vale destacar os trabalhos excepcionais de Vera Farmiga e Freddie Highmore, que souberam explorar muito bem as personalidades complexas dos personagens centrais. Ambos demonstraram força e fragilidade na medida certa, além de terem conseguido transmitir a relação de dependência e amor que mãe e filho nutriam.
Por fim, é preciso dizer que "Bates Motel" não se deixou seduzir pelo lado mais fácil da adaptação e utilizou apenas ideias já existentes para construir uma trama própria. A clássica cena do chuveiro, por exemplo, nem de longe pareceu uma cópia barata da original. Com uma outras atmosfera de suspensa construída, o momento em que Norman esfaqueia sua vítima foi mais realista e nem mesmo utilizou recursos sonoros que lembrassem da morte de Marion Crane na versão de Hitchcock. Ponto para a coragem dos roteiristas, produtores e diretores da série.
"Bates Motel" terminou sua trajetória na TV com um saldo dos mais positivos. Foi uma série que, com inteligência, aproveitou o melhor de uma trama conhecida e, indo mais além, soube impor personalidade própria e desenvolver mais o desfecho de clássicos personagens. Para quem não acompanhou durante esses cinco anos, vale, agora, com certeza, fazer uma maratona.

BATES MOTEL (quinta e última temporada)

ONDE: A&E (Estados Unidos); ainda sem data de lançamento no Brasil

COTAÇÃO: ótima

segunda-feira, 17 de abril de 2017

"13 Reasons Why" aborda temas necessários, mas escorrega no desenvolvimento da trama

É compreensível o barulho feito pelo mais recente lançamento do Netflix no mundo das séries, o drama adolescente "13 Reasons Why". A história, que foca em temas como bullying e suicídio, é universal e ganha eco em centenas de outros jovens, que vivem ou viveram problemas semelhantes. Esse é, sem sombra de dúvidas, o grande mérito da atração. Há, no entanto, alguns problemas no andamento da trama, que impedem que a produção seja avassaladora.
Baseada no livro "Os Treze Porquês", escrito por Jay Asher, a primeira temporada é contada do ponto de vista de Hannah (Katherine Langford), uma adolescente que decide cometer suicídio. Algum tempo depois, Clay (Dylan Minnette) recebe sete fitas cassetes com gravações da garota, que explicam os motivos para ela ter tomado tal decisão. Cada lado das fitas é dedicado a uma pessoa, que ela responsabiliza pelo acontecido.
Junto com as fitas, Hannah deixa instruções para que os citados nas gravações cuidem para que as fitas sejam passadas para os outros. Ela também orienta que aquelas pessoas sigam um mapa e visitem locais que ajudariam a entender melhor a situação. A garota ainda se certifica de que os citados não possam ignorar ou se desfazer da fitas e, por conta disso, Clay passa a ser seguido por Tony (Christian Navarro), que prometeu guardar os segredos de Hannah.
Os relatos da adolescente mexem muito com Clay, que começa a pressionar os outros citados a revelar o conteúdo das fitas. Nessa jornada, o garoto acaba se colocando no lugar da amiga em muitas situações e entra em contato com diversos dramas comuns aos adolescentes, como bullying, assédio, descoberta da sexualidade e, até mesmo, estupro. Vou parando por aqui para evitar qualquer spoiler sobre a série.
Como já dito, a grande qualidade de "13 Reasons Why" é a proposta de discutir temas necessários e muito sérios, comuns a uma quantidade absurda de jovens no mundo todo. Sem qualquer didatismo ou julgamento, a série acaba prestando um serviço importante a outros que, por ventura, estejam na mesma situação. Assuntos como suicídio e estupro, apesar de pesados, são tratados com muita nobreza e sem exageros, através de cenas impactantes e, ao mesmo tempo, bastante delicadas.
A série, no entanto, se enfraquece em três pontos fundamentais. O primeiro é a construção dos episódios, que se mostram arrastados e repetitivos ao longo da temporada. Os capítulos, de cerca de uma hora cada, claramente poderiam ser mais enxutos e objetivos, mas, para criar esse "padrão", são utilizadas muitas situações repetitivas, que criam "barrigas" na história. É bem verdade que os capítulos finais melhoram nesse aspecto, porém, mesmo assim, é um ponto fraco para o desenvolvimento da série.
Outra característica que enfraquece "13 Reasons Why" e, particularmente, me incomoda muito é a escolha da trama em criar uma conspiração contra Clay, que passa a buscar, de alguma forma, fazer justiça por Hannah. As sequências elaboradas para mostrar os demais adolescentes citados nas fitas contra o protagonista, executando planos para fazê-lo desistir de entregar a todos, parecem irreais e dão um tom quase que de "Malhação" à história.
Por fim, faz falta, em alguns momentos, que os temas e personalidades dos personagens ganhem abordagens mais profundas. O roteiro parece ir até certo ponto, mas acaba recuando quando aparecem novos caminhos para mostrar como aqueles dramas afetam os adolescentes.
O elenco, especialmente os jovens, em quem se concentram os grandes momentos da série, é bastante coeso e contribuí positivamente para a produção. Os destaques ficam com Katherine Langford, Dylan Minnette, Miles Heizer, Brandon Flynn, Alisha Boe e Michele Selene Ang. Entre os adultos, quem se sobressai é Kate Walsh, que vive a mãe de Hannah e é responsável por momentos delicados da série.
Pesando prós e contras, "13 Reasons Why" não chega a ser uma série ruim, especialmente pela relevância dos temas abordados e discussões provocadas. Mesmo assim, fica a impressão que ela poderia ter ido ainda mais além se os erros no desenvolvido da trama tivessem sido sanados a tempo. Caso haja uma segunda temporada, como fica sinalizado, esses pontos fracos, com certeza, precisam receber atenção redobrada.

13 REASONS WHY (primeira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: regular