terça-feira, 6 de dezembro de 2016

65 Anos de Novelas - Dez folhetins que renovaram o gênero na última década


O ano de 2016 marca o aniversário de 65 anos da exibição das telenovelas no Brasil, uma trajetória que começou em dezembro de 1951, com a exibição de "Sua Vida me Pertence" na TV Tupi. Desde então, o formato, que caiu nas graças do público, foi se transformando. No início, eram apenas dois capítulos por semana e, por não existir o recurso do videotape, os folhetins eram exibidos ao vivo. Depois disso, vieram as tramas diárias, inauguradas por "25499-Ocupado", e muitas outras inovações, que deram origem a folhetins emblemáticos, como "Roque Santeiro", "Vale Tudo", "A Próxima Vítima", "Laços de Família" e "Senhora do Destino".
Por conta dessa data, comecei a pensar no que escrever. Lembrei que, há cinco anos, fiz uma postagem sobre as melhores novelas já feitas. Para não me repetir, já que a opinião não mudou muito nesse período, decidi que iria elencar quais foram, na última década, os folhetins que trouxeram algum tipo de renovação ao gênero. 
Achei que a intenção é pertinente, uma vez que a telenovela passa por um momento de intensa transformação. A internet, os serviços de streaming e a força das séries, especialmente as internacionais, têm provocado constantes questionamentos sobre o futuro do folhetim, que anda tendo sua "fórmula" (se é que há uma) contestada por novos formatos de entretenimento. Diante disso, será que a telenovela pode ter algum futuro? Abaixo, alguns exemplos de tramas que propuseram mudanças e podem ajudar a desenhar os caminhos do gênero para os próximos anos.

1) A FAVORITA (2008)

Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia) formavam a dupla sertaneja de sucesso "Faísca & Espoleta". As amigas, que cresceram juntas, sempre foram inseparáveis até se apaixonarem pelo mesmo homem. Esse amor culminou em um crime, que fez Flora ficar 18 anos presa. Mesmo com a condenação, ainda havia dúvidas sobre a autoria do crime, já que as versões da presa e de Donatela eram diferentes. Afinal, então, quem estava dizendo a verdade? O argumento do autor, João Emanuel Carneiro, de não revelar a verdade sobre o crime e sustentar os acontecimentos apenas pelas versões das protagonistas foi a grande contribuição de "A Favorita" ao gênero. Sem revelar a verdade, inclusive sobre a identidade da "mocinha" e da "vilã" do folhetim, o roteiro apostou na ambiguidade das personagens durante os dois primeiros meses, quando, finalmente, descobriu-se que Flora era a grande culpada de tudo. O público, é claro, estranhou a proposta e cobrava o tradicional maniqueísmo na história. No fim, a espera valeu a pena e "A Favorita" fez bonito.

2) CORDEL ENCANTADO (2011)

Nunca houve nenhuma regra sobre o tipo de trama que mais cativa o público, mas, durante, um tempo, convencionou-se dizer que as novelas precisavam ser mais focadas na realidade para agradar. Por isso, durante um período, a fantasia passou longe dos folhetins brasileiros. Isso foi quebrado pelas autoras Duca Rachid e Thelma Guedes, que convidaram os espectadores para viajar a um reino muito distante, mas que acabava se envolvendo com características muito próprias do Brasil. Assim, "Cordel Encantado" inovou ao unir histórias de reis e princesas com o cangaço brasileiro, passando, também, por diversas referências de contos de fada. O resultado, uma mistura de monarquia europeia com os elementos mais fascinantes do Nordeste do nosso país, cativou o público e mostrou que o folhetim pode (e deve!) sair da zona de conforto e apostar na fantasia, desde que, para isso, haja um roteiro consistente e uma direção primorosa com a linguagem e os detalhes. Nunca reis e cangaceiros conviveram de forma tão inspiradora.

3) CHEIAS DE CHARME (2012)

Já ouvi alguns escritores experientes dando o seguinte conselho aos aspirantes a autor: "leia os clássicos". Isso pode ser aplicado, dadas as devidas proporções, ao gênero das novelas. Um dos caminhos para o folhetim seja, talvez, saber modernizar um clássico e transformá-lo em algo mais atual e atraente para o público. O tradicional enredo do "protagonista humilde que passa por uma transformação e vence na vida" ganhou novos contornos com "Cheias de Charme", de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. A história das empregadas domésticas que se descobrem cantoras e alcançam o estrelado não era uma novidade, mas foi contada de uma forma nova. Aqui, as protagonistas, mesmo com traços de "Cinderela", tinham bases mais reais e falavam a uma categoria pouco retratada no primeiro plano das novelas. O folhetim recebeu, ainda, influências digitais, acrescentando discussões sobre o mundo da internet ao enredo. Despretensiosa, a divertida trama acabou abrindo novos horizontes para um gênero que, até hoje, procura entender o público.

4) AVENIDA BRASIL (2012)

Mesmo sendo um prato que se come frio, a vingança sempre foi um importante ingrediente para a ficção. Do clássico "O Conde de Monte Cristo" ao seriado "Revenge", essa reação foi uma constante geradora de conflitos entre personagens. Por conta disso, as novelas também não poderiam ignorar esse recurso, que pode gerar boas histórias. Mas, se a vingança é tão comum, o que pode torná-la inovadora e atrativa ao público atual? A resposta está em "Avenida Brasil", de João Emanuel Carneiro. A vingança de Rita (Débora Falabella) contra Carminha (Adriana Esteves), amparada por um roteiro inteligente, fez com que um "clássico" se transformasse em algo capaz de cativar um público de noveleiros que, praticamente, já viu de tudo. Isso sem contar o fato de que o folhetim trouxe para o centro da cena personagens e tipos comuns a uma fatia média da população, que, até então, sempre ficava restrita a coadjuvantes. Também pode ser considerada uma "novidade" para o gênero o fato de que a novela trouxe, ainda, personagens que questionam, em diversas oportunidades, o habitual maniqueísmo presente no gênero.


5) O REBU (2014)

Aqui, mais uma vez, o argumento não é novo. Remake de uma versão de 1974, escrita por Bráulio Pedroso, a segunda versão de "O Rebu" veio com uma nova proposta: contar uma história de forma não-linear, que se construía peça a peça, como um quebra-cabeça. Assim, o público era apresentado a um corpo que aparecia boiando em uma piscina, após uma badalada festa da alta sociedade. Aos poucos, são revelados os suspeitos e as motivações que poderiam "justificar" o crime. Para isso, o roteiro da história, que se passa toda em uma noite, vai e volta no tempo, forçando o espectador a juntar as informações e criar o cenário completo na cabeça. Com um roteiro pouco comum entre os folhetins, "O Rebu" ainda bebeu da fonte estética da linguagem dos seriados e quase pode ser vista como um "híbrido". Ainda há o fato de que a trama foi concebida para o recente horário das 23 horas, que permite uma narrativa mais condensada, madura e um número reduzido de capítulos. Sem dúvida, mais um bom caminho a ser explorado daqui para frente. 

6) MEU PEDACINHO DE CHÃO (2014)

O diretor Luiz Fernando Carvalho é, sem dúvida, um inovador do audiovisual. Entre seus feitos, o profissional realizou "fusões" de gêneros e, assim, criou uma linguagem muito característica. Já tendo unido a televisão e o teatro na série "Hoje é Dia de Maria", Carvalho optou por levar essa proposta para as novelas e, diante de um remake do autor Benedito Ruy Barbosa, criou um universo lúdico e muito inusitado para um folhetim televisivo. Com elementos lúdicos, cores vibrantes e contando com a imaginação do público, o diretor fez da segunda versão de "Meu Pedacinho de Chão" uma agradável novidade. A aparência infantil dos cenários, figurinos e, até mesmo, na interpretação dos atores se mesclou a temas adultos relacionados a poder e cidadania. Assim, um universo que poderia, facilmente, estar apenas na cabeça de um menino se transformou em uma divertida e inspirada novela, que pode render bons frutos futuramente. 

7) SETE VIDAS (2015)

Já ouvi que não há novela sem vilão. Isso se justificaria porque é o antagonista o único responsável por criar os conflitos nas tramas. Levando essa teoria em consideração, chegaríamos à conclusão de que um folhetim só é possível se houver um vilão. Só que a autora Lícia Manzo conseguiu provar que isso não é uma regra. Em "Sete Vidas", ao invés de um vilão, os conflitos do folhetim eram criados por um outro "personagem": a vida. Baseada nas relações humanas, a novela contava com o desenrolar dos acontecimentos do cotidiano para criar amores, traições, dilemas morais, rivalidades, inveja e afeto. O tom naturalista da trama, que buscava inspiração no dia a dia, não deixou devendo em nada a mais elaborada das fantasias. Essa aposta fez com que a autora investisse em diálogos mais elaborados e cenas mais extensas, que deixavam o espectador vidrado em frente à telinha, mesmo que tenha se tornado mais recorrente ouvir que o público quer, hoje, mais agilidade das histórias.

8) ALÉM DO TEMPO (2015)

Novelas divididas em fases existem aos montes. Os prólogos são, geralmente, utilizados para explicar conflitos que, lá na frente, irão se desenrolar. Outra característica é que as fases iniciais de um folhetim costumam durar poucos capítulos. Melhor dizendo: costumavam durar poucos capítulos. Isso mudou quando a autora Elizabeth Jhin fez "Além do Tempo". A trama, de temática espírita, falava sobre as relações e conflitos entre personagens em dois períodos: no século XIX e nos dias atuais. Na primeira fase, que durou cerca de 80 capítulos, eram apresentados os dilemas e dramas dos personagens, que traziam consequências para a segunda fase da trama, quando as almas já estavam reencarnadas. Apesar de ter uma trama até bastante tradicional, o folhetim deixou seu lado ousado para a narrativa, que acabou criando "duas novelas" e um novo cenário para o público, que sempre esteve acostumado a não se "apegar" tanto ao prólogo das novelas.

9) A REGRA DO JOGO (2015)

A figura do anti-herói, muito comum no cinema e nos seriados, demorou para chegar às novelas. Mesmo assim, na última década, tivemos alguns folhetins que exploraram esse tipo de personagem, como "Cobras & Lagartos" e "Império". Nenhum deles, no entanto, foi tão à fundo nesse objetivo como "A Regra do Jogo", de João Emanuel Carneiro. O protagonista, Romero Rômulo (Alexandre Nero), era um ex-vereador envolvido em causas humanitárias, mas que, na verdade, usava esse tipo de personalidade para disfarçar o seu envolvimento com uma poderosa facção criminosa. Durante todo o folhetim, Romero viveu em conflito com suas escolhas, o que fez com que a construção da personalidade do personagem passasse longe dos tradicionais conceitos de "bem" e "mal". Da mesma forma, a "mocinha" Tóia (Vanessa Giácomo) e a "vilã" Atena (Giovanna Antonelli) tinham atitudes que contestavam o tradicional maniqueísmo a que esses tipos de personagens sempre ficaram "aprisionados".

10) VELHO CHICO (2016)

Recém-encerrada no horário das 21 horas da TV Globo, "Velho Chico" pode ser considerada um dos exemplos mais completos de renovação do folhetim, sem que o mesmo perca as características que o marcaram. Com um enredo tradicional, baseado em amores proibidos e conflitos entre famílias rivais, a trama de Benedito Ruy Barbosa apostou na inteligência do público para trazer de volta os debates políticos e sociais ao horário nobre da televisão aberta. Com a contribuição impecável do diretor Luiz Fernando Carvalho, o folhetim inovou em estética, edição e fotografia, misturando movimentos e conceitos de arte e entretenimento. As reflexões propostas pelo texto (e pelo subtexto) criaram momentos antológicos da televisão e mostraram que uma novela pode sair da superficialidade e levar algo mais substancial ao espectador. É claro que, com uma proposta como essa, houve estranhamento por parte do público, mas uma experiência como essa foi muito importante a história da televisão brasileira. "Velho Chico" mostrou, principalmente, que poesia, seja ela falada ou visual, pode ter um espaço definitivo na teledramaturgia diária. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Luke Cage reforça coerência do universo Marvel e eleva o patamar das produções do gênero

Nova York é uma cidade muito grande e, por conta disso, o mal se apresenta em diversas formas e em lugares variados. Enquanto, em Hell´s Kitchen, um homem com fama de "demônio" e uma mulher incrivelmente forte tentam controlar aqueles que querem dominar a região, em outro canto da cidade, um novo "vigilante" surge para proteger a população. O cenário agora é o Harlem e o protetor em questão é Luke Cage (Mike Colter), o protagonista da última série lançado pelo Netflix sobre o universo Marvel. E, mais uma vez, repetindo o êxito das anteriores, a produção é digna de elogios pela coerência e qualidade visual, mesmo carregando um ou outro escorregão.
Cage, depois de uma passagem por Hell´s Kitchen em "Jessica Jones", se instalou no Harlem, onde arrumou um apartamento alugado e um emprego na barbearia de Pop (Frankie Faison), além de encarar um segundo turno de trabalho como lavador de pratos na boate Harlem´s Paradise. O local é gerenciado por Cornel Stokes (Mahershala Ali), mais conhecido como "Boca de Algodão", que também é responsável pelo tráfico de armas e por uma das facções que comandam a região. 
Stokes mantém uma aliança com a prima Mariah Dillard (Alfre Woodard), uma vereadora que, com um projeto de fachada para preservar o Harlem, ajuda e se beneficia das transações do primo, mesmo que diga não "sujar as mãos" com o trabalho. Um conflito, iniciado por um roubo, acaba cruzando os caminhos de Cage e Stokes e provocando uma medição de forças na região. 
A "guerra" se torna mais desafiadora para Stokes quando é revelado que Luke Cage não é um homem qualquer. Vítima de uma experiência enquanto esteve preso no passado, ele possui uma pele impenetrável, capaz de resistir a quaisquer golpes, armas ou facas. Descobre-se, porém, que uma munição conhecida como "Bala de Judas" pode perfurar a pele do novo herói do Harlem. Quem coloca o plano em prática, no entanto, é Willis Stryker (Erik LaRay Harvey), o temido Kid Cascavel, que assume a investida contra Cage e, inclusive, mostra ter assuntos inacabados do passado com ele. No meio da disputa entre as forças do Harlem, ainda há a corrupta polícia do bairro, contaminada pela influência de Stokes, mas que preserva bons talentos no combate ao crime, como a detetive Misty Knight (Simone Missick).
Após os êxitos de "Demolidor" e Jessica Jones", é possível dizer que a parceria Netflix/Marvel rendeu mais um bom fruto. "Luke Cage" sobe um degrau no gênero e traz uma narrativa com novos contornos e um visual marcante. O roteiro segue o estilo narrativo das outras produções do gênero, em um ritmo próprio e impossível de ser comparado com séries que não façam parte do mesmo universo criativo. As tramas são bem amarradas, os ganchos são muito eficientes e os personagens bem desenhados.


É importante dizer que "Luke Cage" mantém o inteligente diálogo entre as produções da Marvel, seja no cinema ou na televisão. Há referências a filmes, como "Vingadores", e um canal direto e coerente com as séries produzidas pelo Netflix. A estética da série também "conversa" com "Demolidor" e "Jessica Jones", mas apresenta características novas, como os tons amarelados e escuros da fotografia. A trilha sonora também é excelente.
Há, no entanto, algumas escorregadas, que não chegam a prejudicar de forma definitiva a série, mas, de qualquer forma, estão ali. A história demora a engrenar, caminhando em círculos nos três primeiros episódios. Quando o passado de Cage é contado, em flashback, a narrativa se impõe mais interessante e os conflitos conseguem, finalmente, caminhar. Quando a trama se direciona para mostrar uma ligação entre Cage e Kid Cascavel, o roteiro ganha um tom, por vezes, piegas, que enfraquece ligeiramente o enredo. Mesmo assim, como dito antes, são tropeços que não comprometem o resultado final do produto.
Os vilões Cornel Stokes e Mariah Dillard merecem destaque entre os personagens da série, especialmente a segunda, que, justiça seja feita, desde o início se mostra interessante, mas ganha força quando passa a ser a "cabeça" do grupo criminoso do primo. O grande mérito disso, além do roteiro, é da atriz, que explora muito bem os conflitos internos da vereadora, que tenta abafar seu "lado obscuro", que a conecta com a mulher que a criou. Ainda vão bem Mike Colter, Frankie Faison, Simone Missick e Rosario Dawson, que volta com a enfermeira Claire, presente nas outras produções.
Diante de erros que, nem de longe, alcançam os acertos, a primeira temporada de "Luke Cage", com treze episódios, se mostra uma importante peça do universo Marvel no Netflix. O caminho fica, agora, ainda mais fortalecido para "Punho de Ferro" e "Os Defensores", produção que irá reunir as quatro tramas anteriormente apresentadas. Tudo isso só vai mudar se houver um desvio muito brusco em relação ao que já foi apresentado. Pelo menos até aqui, esse não foi o caso.

LUKE CAGE (primeira temporada)

Onde: Netflix - todos os episódios disponíveis

Cotação: ótima

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Safra de novas séries surge enfraquecida e é incógnita para prosperar

Assim como a volta das séries já conhecidas do grande público, esse período do ano também traz uma safra de novas produções que buscam um lugar na, cada vez mais disputada, programação da televisão americana. Pulsante e muito criativo nos últimos anos, o mercado de séries passou a abrigar, neste ano, novas produções que se mostram mais fracas e menos instigantes do que as que surgiram em anos anteriores. Clichês, adaptações e histórias superficiais dão o tom de algumas dos programas que buscam "um lugar ao sol". A seguir, reúno as principais estreias da temporada na televisão americana e uma opinião sobre cada um delas, o que não quer dizer que isso seja uma "sentença de morte" para elas, que ainda têm bastante tempo para se recuperar, se for o caso.

1) Designated Survivor (ABC)

O eterno Jack Bauer está de volta, agora como presidente dos Estados Unidos. Em "Designated Survivor", Kiefer Sutherland é Tom Kirkman, o secretário de Habitação do governo federal na terra do Tio Sam. Ele é escolhido como o representante do governo que ficará protegido, em local desconhecido, durante o famoso discurso do Estado da União, feito pelo presidente, um procedimento padrão de segurança para dar continuidade ao governo em caso de um atentado. Durante o evento, o Capitólio é vítima de um atentado que mata todos os representantes do governo, o que torna Tom o novo presidente do país. Pego de surpresa e, aparentemente, sem o perfil ideal para o cargo, ele precisa lidar com os desafios que a nova função lhe impõe. "Designated Survivor" é uma das melhores séries da nova safra, mas peca por não apostar em novidades, escolhendo caminhos narrativos conhecidos e seguros. A trama de conspiração interna para prejudicar o governo, vista em outras produções, não empolgou logo de cara. Kiefer Sutherland também não diz a que veio no início da série.



2) Pitch (FOX)

Assim como a anterior, "Pitch" mostrou-se uma das melhores novas séries que estrearam. A história acompanha a ascensão de Ginny (Kylie Bunbury), que carrega a responsabilidade de ser a primeira mulher arremessadora a ser escalada para um grande time de beisebol. Na sua chegada para o campeonato, ela lida com muita pressão e preconceito em torno de sua atuação. Diante dos olhares do público, dos jogadores e da direção do time, ela busca forças no passado para superar as dificuldades e conta com a ajuda dos ensinamentos do pai, responsável pelo treinamento e pelo desejo de ver a filha se tornar uma grande jogadora. "Pitch" traz uma trama diferente e interessante, com bons elementos e uma surpresa, no primeiro episódio, que impressiona. A série, no entanto, parece ter pouco espaço para um crescimento da narrativa, que leve a história para outros pontos. Resta, agora, acompanhar e esperar.



3) Notorious (ABC)

O enredo é dos mais interessantes, mas a abordagem superficial deixa muito a desejar. Esse é o resultado de "Notorious", outra série que estreou nesta temporada. A trama aborda a produção de um programa jornalístico, comandada por Julia George (Piper Perabo). Com a ajuda do famoso advogado Jake Gregorian (Daniel Sunjata), ela leva ao público as principais notícias e casos interessantes, utilizando, para isso, métodos traiçoeiros e pouco ortodoxos de manipulação de mídia, que também servem a seu parceiro na esfera jurídica. Inspirada em um história real, "Notorious" é o clássico caso de série certa, com a abordagem errada. O bom tema se mostra subaproveitado e superficial, caindo até em alguns clichês e se aproveitando de um mistério desnecessário. Se fosse uma série de televisão a cabo, talvez a qualidade fosse outra.



4) Bull (CBS)

Também baseada em uma história real, "Bull" não empolga logo de cara. A produção traz o advogado Jason Bull (Michael Weatherly) e a abordagem inusitada que o profissional tem para conduzir seus casos. Com uma moderna estrutura, ele é especialista em analisar os jurados e, com isso, entender quais as chances de vencer no tribunal. Ele exige "carta branca" para controlar a conduta do cliente, desde a vestimenta até os gestos que devem ser feitos diante do juri. Assim como outras dessa nova safra, "Bull" peca pela superficialidade. A estreia não diz nada e ensaia uma complexidade na personalidade do protagonista, que não deve salvar a produção.



5) MacGyver (CBS)

Uma série que começa errada, dificilmente consegue se recuperar. Alguém decidiu reviver o clássico personagem MacGyver, sucesso entre os anos 80 e 90. Até ai, tudo bem. O problema é que esqueceram de modernizar a narrativa e trazer novos elementos para a produção. A trama do agente que trabalha em missões secretas para o governo, em um departamento desconhecido até pelo FBI e para a CIA, definitivamente não empolga. É uma série datada, cujos roteiristas parecem não ter tido criatividade para transportá-la para os dias atuais. Nem mesmo a tecnologia adotada nos procedimentos faz com que o público se sinta em uma história atual. Isso sem falar nos clichês narrativos, que só prejudicam a série. Ao que parece, as habilidades impressionantes de improviso de MacGyver não foram suficientes para os dias atuais. Sem um bom roteiro, não se vai muito longe.



6) This is Us (NBC)

Será que existe alguma conexão especial e inexplicável entre pessoas que nasceram no mesmo dia? Bom, honestamente, vendo "This is Us", não dá nem vontade de descobrir. Apesar de um surpresa no fim do primeiro episódio, esta é mais uma produção nova que não empolga. A narrativa do início até que é boa, contando histórias diferentes sem determinar períodos ou conexão. Há, no entanto, à primeira vista, uma tremenda falta de elementos que agucem a curiosidade do público para um próximo episódio. O enredo, num primeiro momento, também parece pouco engessado e sem grandes possibilidades de crescer. Quem sabe possa ter algum êxito se for construída como uma antologia, trazendo uma trama diferente por temporada. Mesmo assim, talvez nem prospere nesse nível...



7) Lethal Weapon (FOX)

Mais uma adaptação, desta vez do sucesso cinematográfico de ação "Máquina Mortífera". A série traz Damon Wayans (de "Eu, A Patroa e as Crianças") vivendo o policial cinquentão Roger Murtaugh, que está voltando ao trabalho depois de um problema cardíaco. No retorno, ele descobre que terá um novo parceiro, o policial Martin Riggs (Clayne Crawford), um homem traumatizado pela morte da esposa grávida e que, por isso, parece "procurar" a morte. A partir daí, seguindo a linha cinematográfica, surgem muitas explosões, perseguições e tiros na busca por resolver os crimes em Los Angeles. Como gênero de ação, apesar de não ser nenhuma maravilha, "Lethal Weapon" não se dá mal, mas como trama deixa muito a desejar. A superficialidade (ela de novo!) constrói mal o drama dos personagens e até forja certa profundidade na personalidade dos personagens. É, como quase todas as séries dessa leva, uma incógnita.

sábado, 1 de outubro de 2016

"Adeus Velho Chico, diz o povo nas margens"


Os amores impossíveis, causados pela guerra entre famílias rivais, são recorrentes na literatura e nas telenovelas. De Shakespeare aos dias atuais, passando por diversas fases e estilos, eles estão presentes. Mas, nenhum deles foi como Santo (Domingos Montagner) e Teresa (Camila Pitanga). Os coronéis que dominam os mais carentes e controlam a política de suas regiões também aparecem vez ou outra, mas nenhum é como Afrânio de Sá Ribeiro (Antonio Fagundes). O místico e o lúdico costumam despertar a curiosidade do público, mas nunca foram tão poéticos como os mistérios que guardam o rio São Francisco. Tudo isso foi para dizer que "Velho Chico", novela que teve o último capítulo exibido nesta sexta-feira (30), é muito especial.
A trama de Benedito Ruy Barbosa e Bruno Luperi chamou atenção desde o início, para aqueles que se dispuseram a uma proposta diferente de novela. Fora do convencional desde o primeiro capítulo, "Velho Chico" apostou na poesia e na reflexão para contar a história de uma cidade dominada pela influência e poder político dos De Sá Ribeiro, clã que passa a ser comandado por Afrânio, um homem que leva uma vida diferente daquela, mas se vê obrigado a "vestir" o papel do Coronel Saruê, figura que sempre dominou a região. A família vive em guerra com o coronel Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi) e o clã Dos Anjos, o que resulta em mágoas, mal entendidos e sangue.
Ressaltando a disputa entre as famílias e a política feita na cidade de Grotas do São Francisco, a novela chegou ao fim com a resolução de tantos conflitos, sem deixar de lado, é claro, o tom poético que conduziu sua trajetória. Depois de se livrar da personalidade do Coronel Saruê, Afrânio decide se redimir de todos os pecados cometidos contra sua família e o povo da região. Figura símbolo de práticas políticas condenáveis e, infelizmente, bem brasileiras, Afrânio revela ao Ministério Público todos os esquemas que envolvem o coronelismo e a prefeitura de Grotas, entregando listas de políticos beneficiados com os esquemas de corrupção na região. Isso faz com que o deputado Carlos Eduardo (Marcelo Serrado), que havia assumido o posto de Saruê, tenha de fugir com todo o dinheiro roubado dos cofres públicos. Mas, perdido durante a fuga, a seca do sertão dá um jeito de punir o corrupto para sempre.
Divulgação/TV Globo
Afrânio tem seu momento de redenção no fim, quando, ao lado do amor de Iolanda (Christiane Torloni), mostra que se livrou de vez da figura de Saruê e busca o perdão do filho Martin (Lee Taylor), vítima dos caminhos tortuosos cavados pelo coronel. Já morto, ele e o pai têm um encontro de almas para encerrar suas pendências e continuarem com suas trajetórias, cada um em seu plano.
O amor de Santo e Teresa é coroado com o casamento dos dois e, é claro, a reconciliação das famílias, que seguem unidas e contribuindo com a prosperidade de Grotas.
Agora, escrevendo essas linhas, percebo que qualquer resumo que possa fazer de "Velho Chico" diminui, e muito, a imensidão da trama e a contribuição rica que o folhetim trouxe para o gênero. São tantos aspectos relacionados à política, ao meio ambiente e aos relacionamentos humanos, que fica impossível explicá-los em um texto. Nunca houve algo como "Velho Chico".
Falemos, então, das qualidades do folhetim, a começar pelo texto, que soube trazer reflexões importantes ao público sem deixar de lado os ingredientes clássicos da telenovela. Há tempos, sinto falta de tramas com conteúdo, que possam levar o público a um outro lugar através da emoção e da razão. Sem discursos pedantes, "Velho Chico" falou de política, de desenvolvimento sustentável e distribuição de renda, além de provocar o público a fazer reflexões sobre o meio ambiente e o futuro que queremos para o mundo em que vivemos. Cada diálogo, cada vírgula estava ali por um motivo, o que demonstrou cuidado dos autores com o texto.
Nestes últimos capítulos, pegando apenas um espaço curto de tempo e memória, foram inúmeros os momentos emocionantes e especiais da trama. A morte de Encarnação (Selma Egrei), a última conversa entre a matriarca dos De Sá Ribeiro e Iolanda, o encontro derradeiro entre Afrânio e Santo, o acerto de contas do coronel com Martim e o final trágico de Carlos Eduardo são apenas alguns desses exemplos. A sequência em que Afrânio deixa que o rio São Francisco "leve embora" a figura do Coronel Saruê de sua personalidade é uma das coisas mais bonitas que já houve na televisão brasileira.
Divulgação/TV Globo
Grande parte do êxito de "Velho Chico" é responsabilidade do diretor Luiz Fernando Carvalho, que possui um olhar único, não só no Brasil, mas no mundo todo. Através de closes, luz, cor, ângulos de câmera e cortes na edição, o diretor fez chegar poesia ao principal horário comercial da maior emissora do país. Para isso, é claro, enfrentou resistência e percalços, mas nunca deixou de frisar que esse era o trabalho que ele queria apresentar ao público. Misturou tudo: teatro, cinema, circo, televisão, pintura, artesanato, música e cultura popular. O resultado não é nada menos do que excepcional. A mão do diretor também influenciou no elenco, todo muito coeso. 
Não dá para encerrar sem falar na solução encontrada para preencher a lacuna deixada pelo ator Domingos Montagner, morto depois de se afogar no próprio rio que inspirou a novela. Santo nunca deixou de estar presente, graças ao recurso de usar uma câmera subjetiva para fazer com que os personagens interagissem com ela e para deixar o público com a impressão que Santa ainda estava ali... e estava! No fim, uma emocionante homenagem ao ator foi levada ao ar, Nela, Santo aparecia navegando nas águas no rio e, depois, a cena destaca que a alma dele está à bordo do Gaiola Encantado, barco que, na crença dos personagens da trama, leva os espíritos por todo o percurso do São Francisco.
Usando a música "Francisco, Francisco", usada na última sequência da novela, "adeus Velho Chico, diz o povo nas margens". O público é "o povo das margens", que se despede e agradece pela poesia e pelas reflexões que a trama trouxe para o gênero. Quem dera sempre fosse assim... Pensando bem, melhor que trabalhos como esse sejam esporádicos, pois o corriqueiro não deixa espaço para o especial. "Velho Chico", me repetindo, é muito especial.

sábado, 24 de setembro de 2016

Narrativa ousada de "Justiça" precisa virar hábito na TV aberta brasileira

Divulgação/TV Globo

Quando fazemos uma comparação entre as séries de televisão norte-americanas e as brasileiras, percebemos uma clara diferença nos estilos de narrativas. Por aqui, os autores ainda estão muito habituados ao gênero da telenovela e, por isso, ainda há uma distância para alcançar a qualidade dos roteiros mais curtos e complexos. "Justiça", série que a TV Globo terminou de exibir nesta sexta-feira (23), foi um imenso passo para que a nossa televisão aberta possa alcançar um padrão semelhante de qualidade.
Escrita por Manuela Dias, a série se mostrou um acerto em muitos sentidos. O primeiro é a narrativa em si, que trouxe quatro tramas independentes, que acabam se cruzando por detalhes, ações ou personagens. A cada dia da semana, exceto às quartas-feiras (dia de futebol na grade da emissora), um protagonista mostra como foi afetado pela justiça (ou pela ausência dela). O fio condutor da história está relacionado às prisões de Vicente (Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauã Reymond), todos condenados, por algum motivo, a sete anos de prisão. As tramas, então, se desenvolvem a partir do cumprimento das penas dos personagens e o que cada um faz com a vida a partir daí.
Vicente sai da cadeia depois de ser preso por assassinar a tiros a namorada Isabela (Marina Ruy Barbosa), que o traiu. Ele, então, cumpre sua pena e se arrepende do crime que cometeu, mas não sabe que, do lado de fora dos muros do presídio, a ex-sogra Elisa (Débora Bloch) se prepara para matá-lo e, assim, vingar a morte da filha. Por insistência do namorado (Cássio Gabus Mendes), ela acaba dando uma chance de redenção para Vicente e até se afeiçoa ao rapaz, chegando ao ponto de se sentir atraída e ter um caso com ele. No fim, os dois acabam sofrendo um acidente de carro e, apesar de não ter tido coragem de matar o rapaz antes, ela deixa Vicente sem socorro e ele acaba morrendo.
Fátima, que trabalha na casa de Elisa como doméstica, também tem seu destino traçado quando, para salvar seu filho, mata o cachorro do vizinho Douglas (Enrique Diaz), um policial truculento que, para se vingar, planta drogas na casa dela, provocando a prisão da empregada. Sete anos depois, ela sai da cadeia e descobre que sua família foi estraçalhada pelos acontecimentos. Depois da morte do marido, esfaqueado na mesma semana em que ela foi presa, a filha Mayara (Julia Dalavia) virou prostituta e se aproximou de Kellen (Leandra Leal), a mulher de Douglas, em busca de vingança. O filho mais novo cresceu nas ruas e se tornou um trombadinha. Ao invés da vingança, Fátima acaba escolhendo o caminho oposto e, assim, concede o perdão a Douglas e reconstrói a vida.
Também presa há sete anos, acusada de ser traficante de drogas pelo comportamento racista de Douglas, a jovem Rose tenta retomar a vida e a relação com a amiga Débora (Luisa Arraes), que acabou não prestando ajuda a Rosa na noite da prisão. Tentando se refazer, ela retoma sua relação com Celso (Vladimir Brichta) e se empenha em ajudar Débora a descobrir a identidade do homem que estuprou a amiga, para fazê-lo pagar pelo crime, uma vez que a polícia nunca fez nada. No fim, enquanto Rose e Celso constroem uma vida juntos e seguem em frente, Débora não consegue desistir da vingança contra o estuprador e, depois de persegui-lo, o mata com suas próprias mãos. Não conseguindo conviver com o que fez, ela some sem destino.
Divulgação/TV Globo
A quarta história mostra a busca por "justiça" de Maurício, que teve a esposa, Beatriz (Marjorie Estiano), atropelada por Antenor (Antonio Calloni), agora um político influente. Ele é preso por, a pedido da mulher, praticar eutanásia nela, que, por ter ficado tetraplégica, teve uma vida distante da dança, sua profissão. Depois de cumprir a pena, ele usa o dinheiro que juntou, fazendo a contabilidade de bandidos, para apoiar a candidatura de Antenor a governador, mas, ao mesmo tempo, abrindo caminho para destruí-lo. Quando consegue ver o político corrupto preso, Maurício junta o dinheiro que sobrou e também some sem rumo, encontrando Débora pelo caminho.
A inteligência do roteiro de "Justiça" é algo que precisa se tornar constante na dramaturgia brasileira. Com diálogos fortes, a trama se construiu como um quebra-cabeça, já que a narrativa, muitas vezes em ordem não-cronológica, exigia que o público "juntasse as peças" e organizasse a cronologia na cabeça. É bem verdade que algumas histórias, por terem mais elementos ambíguos e personagens ricos, renderam mais que outras, como o caso das tramas de Elisa e Fátima, mas, no resultado final, houve um equilíbrio, que fez com que os enredos menos atrativos, de Rose e Maurício, não fossem prejudicados.
"Justiça" também proporcionou reflexão e fez com que pudéssemos avaliar nossos padrões morais. O que você faria se sua filha fosse assassinada pelo namorado? Seria fácil perdoá-lo, depois de um tempo na cadeia, ou o desejo de vingança falaria mais alto? É claro que, se isso ficar apenas no campo da teoria, nos basearemos nos nossos conceitos de moral para elaborarmos uma resposta. Mesmo assim, isso só ficaria como uma distante hipótese. A série, no entanto, quis contestar esse tipo de pensamento e introduzir o conceito de que "na prática, a teoria é outra". Será que, diante desse fato real, teríamos a mesma atitude que imaginamos? É possível condenar uma mãe que deseja a morte do assassino da filha? São temas que, com certeza, quem acompanhou, está pensando até agora.
"Justiça" foi uma grata surpresa, inclusive pela qualidade do texto de Manuela Dias, que abre um caminho interessante e que deve ser repetido por outros. Espero que a série seja um pontapé para que a televisão aberta brasileira invista mais em no gênero e, assim, presenteie o público com esse tipo de entretenimento, que não fica devendo em nada às produções estrangeiras.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Desfecho de Escobar em "Narcos" é marcado por muita ação e trama que demora a engrenar


O que fazer quando o desfecho de uma série já é amplamente conhecido pelo mundo? Como manter a curiosidade dos espectadores? Bom, o mínimo que deve acontecer é manter a qualidade "lá no alto". Sim, Pablo Escobar morre na segunda temporada de "Narcos", disponibilizada pelo Netflix na semana passada. Mas, isso não é o que mais importa na série. O cerco a um dos maiores narcotraficantes do mundo e os efeitos da anunciada morte são os destaques da produção, que, por outro lado, acaba sofrendo com problemas no roteiro logo no início.
O aguardado segundo ano de "Narcos" começa a partir da fuga de Escobar (Wagner Moura) de "La Catedral", a prisão que abrigou o traficante por um período. A situação faz com que ele e sua família passem a se esconder nas várias propriedades do império do criminoso. À princípio, Escobar mantém uma postura petulante em relação ao governo e a polícia, confiando na população de Medellín e nos sicários para fazerem sua retaguarda.
Na caçada ao traficante, os agentes norte-americanos do Drug Enforcement Administration (DEA), Javier Peña (Pedro Pascal) e Steve Murphy (Boyd Holbrook), enfrentam mudanças na operação policial, com a chegada de uma chefa (Florencia Lozano) para controlar as coisas e as mudanças de estratégia do presidente César Gaviria (Raúl Méndez) para pegar Escobar. Uma delas, inclusive, foi a aposta em trazer de volta Horacio Carrillo (Maurice Compte) para comandar o grupo especial incumbido de encontrar o protagonista.
Mas, as autoridades não são a única preocupação de Escobar, que ainda precisa lidar com as investidas de seus inimigos que pretendem conquistar a fatia do mercado de cocaína comandada pelo narcotraficante. Neste lado da perseguição, está Judy Moncada (Cristina Umaña), que deseja se vingar de Escobar e assumir os negócios. Para isso, ela procura se aliar aos chefões do Cartel de Cali, que vê uma possibilidade de controlar a venda de entorpecentes, especialmente em Miami. Para caçar Escobar, eles fazem uma parceria com "Los Pepes", grupo guerrilheiro que passa a se empenhar em ver o protagonista morto.
Os trabalhos paralelos das autoridades e dos inimigos de Escobar acabam convergindo e gerando momentos tensos à Colômbia, que acaba sofrendo as consequências e, a partir das reações do protagonista diante do cerco, acaba pagando um preço caro. O início da queda de Escobar faz com que a integridade de sua família fique ameaçada, causando a separação deles e a consequente tentativa de Tata (Paulina Gaitan) e dos filhos do bandido de deixarem o país.
Depois de muitas reviravoltas e mortes para ambos os lados, Escobar se vê isolado e na iminência de ser pego a qualquer momento. Mesmo assim, ao lado de seu fiel comparsa Limón (Leynar Gomez), ele se instala em uma casa em Medellín e resiste em se entregar. É ali que o famoso Pablo Escobar, antes amado pela população e agora visto como uma ameaça, vive suas últimas horas, até ser cercado pela polícia e morto em 1993.
Com um "spoiler" já amplamente anunciado, "Narcos" tinha uma difícil tarefa pela frente, mas, fazendo um balanço geral, conseguiu cumprir com as expectativas e apresentar um bom resultado. As sequências de ação, que marcam o fecho do cerco a Escobar, são responsáveis por alguns grandes momentos da série, especialmente nos últimos episódios. 
Essas mesmas sequências, no entanto, são parte do problema, que está presente na metade inicial da temporada. Depois de um primeiro ano cheio de reviravoltas, "Narcos" deixa, nos primeiros episódios, a sensação de que falta uma trama consistente e que, por isso, as cenas de ação, repetitivas nesse período, são tão presentes. Elas servem de "muleta" para um roteiro promissor, mas que guarda seus melhores momentos para os últimos quinto episódios. Recuperados, os conflitos entre os personagens, antes superficiais, ganham contornos interessantes e tornam, inclusive, as sequências de ação mais potentes.
A condução inteligente do roteiro na segunda metade da temporada também permite que o caminho fique aberto para uma vida da série sem Escobar, já que a atração foi renovada para mais dois anos. O poder adquirido, pelo Cartel de Cali, de forma tímida e certeira, o que resulta em uma ascensão coerente no fim.
O elenco tem uma atuação regular e bastante satisfatória, inclusive com coadjuvantes marcantes nesta segunda temporada. Mais uma vez, no entanto, quem rouba a cena é Wagner Moura, agora muito mais seguro e dono do personagem. O ator tem um trabalho impecável como Escobar, trazendo humanidade e sentimentos controversos a uma figura presente no imaginário de muitas pessoas. Se, no trabalho corporal, Moura revela um Escobar físico, é no olhar que ele desnuda a alma do traficante, ora apreensivo e ora tão seguro de si. 
"Narcos" vai viver após Pablo Escobar e, se apresentar um roteiro consistente, tem todas as condições para isso. Superados os problemas iniciais, com uma trama de pouco movimento, apesar das cenas de ação constantes, a série termina o segundo ano acima da média, com um desfecho satisfatório e que valoriza a figura central do traficante. Seguramente, pode-se dizer que Escobar fez história no mundo das séries e, agora, o Cartel de Cali terá que se esforçar para manter o nível.

NARCOS (segunda temporada)

Onde: Netflix (todos os episódios disponíveis)

Cotação: ótima

sábado, 23 de julho de 2016

Stranger Things traz trama bem amarrada e proporciona prazerosa "viagem" aos anos 80

Qual seria o resultado de uma trama que misturasse "E.T. - O Extraterrestre", Stephen King, filmes de terror, RPG, Joy Division, "Os Goonies", cultura nerd, videogames, projetos secretos do governo e um grupo de crianças envolvidas em um mistério? Se alguém perguntasse isso antes da semana passada, a resposta seria incerta, mas, agora a questão já está respondida. "Stranger Things", a nova série do Netflix, vem agradando crítica e público por misturar elementos da cultura pop dos anos 80 e, através de uma história bem contada, propor uma divertida viagem no tempo através das influências do período.
Em oito episódios, a série dos irmãos Matt e Ross Duffer, ambientada na cidade de Hawkins, começa com o desaparecimento de Will (Noah Schnapp), um menino fissurado em videogames e jogos de RPG com os amigos. O caso chama a atenção da população local, habituada ao estilo de vida pacato da região, e quase enlouquece a mãe do garoto, Joyce (Winona Ryder). Desesperada, e com a ajuda do filho mais velho Jonathan (Charlie Heaton), ela convence Jim Hooper (David Harbour), o chefe da polícia local, a intensificar as buscas.
O inexplicável desaparecimento do garoto também coloca seu grupo de amigos em alerta e, assim, Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) decidem ajudar a procurar o amigo. Os garotos, porém, acabam encontrando uma estranha menina, que está envolvida em outros mistérios que envolvem o lugar e que possui ligações com o desaparecimento de Will. Ela se identifica como Eleven (Millie Bobby Brown), que mostra ter certas habilidades especiais e está fugindo de alguém.
Escondida no porão de Mike, o garota, que pouco fala e parece ainda estar adquirindo controle sobre suas habilidades, revela ter pistas sobre o desaparecimento de Will. Enquanto isso, Joyce acaba percebendo que o filho está tentando se comunicar com ela, do lugar que ele está, através das luzes de sua casa. O contato, no entanto, acaba deixando-a vulnerável a uma criatura misteriosa, responsável pelo sumiço do menino.
Mesmo diante de fatos que comprovam, aparentemente, a morte do menino, Joyce passa a se dedicar a provar que o filho está vivo em algum lugar. Ela ganha o apoio de Hooper, que acaba descobrindo provas de que o caso está ligado a uma operação do governo comandada por Martin Brenner (Matthew Modine), que foi responsável pelo surgimento da criatura que está agindo na cidade.
A trajetória de Joyce e Hooper se une às buscas feitas pelos amigos de Will quando eles descobrem que Eleven também estava envolvida nas experiências de Brenner.
Antes de mais nada, é preciso dizer que "Stranger Things" funciona bem, especialmente, por conta de um fator afetivo muito forte e presente a um determinado público. Com muita eficiência, a série é criada a partir de tramas e conceitos visuais que fazem referência à década de 80 e, por conta disso, envolvem facilmente aqueles que viveram o período ou, até mesmo, que nasceram depois mas ainda absorviam muito da cultura pop dessa fase. Com muita inteligência, os criadores também conseguiram construir uma história universal, que pode ser facilmente assimilada até pelos mais novos, que não foram influenciados pela época em questão.
O sucesso de "Stranger Things" não é explicado somente por essas referências, mas, também, pela ótima condução do roteiro, com episódios bem construídos e tramas bem amarradas. Isso faz toda a diferença, porque, do contrário, seria uma produção construída a partir de clichês ultrapassados. A inteligência dos autores fez com que enredos comuns para a época e, em certa medida, bastante óbvios, se transformassem em um entretenimento de muita qualidade.
Quase tudo visto ali foi, de alguma forma, absorvido por aqueles que viveram a cultura do período: crianças se envolvendo em mistérios sobrenaturais, crises de personalidade típicas do início da adolescência; romances juvenis, histórias de terror, aventura, experiências secretas do governo que impactam uma comunidade, tudo isso, e muito mais, está presente no contexto da produção. Por terem sido costuradas de forma inteligente e divertida, a série acaba soando como uma homenagem ao período e às marcas que obras dos anos 80 puderam deixar na formação criativa das gerações que vieram depois.
Fora isso, há um elenco muito correto, que dá vida a personagens característicos da época; uma trilha sonora coerente com a trama e fundamental para essa "viagem no tempo" proposta pela série; e uma produção e um acabamento dignos de muitos elogios.
Quer um conselho? Se ajeite no sofá e se programe para uma maratona de "Stranger Things", que, eu garanto, é viciante. O número de episódios até facilita com que possam ser vistos um atrás do outro. Se você viveu os anos 80 ou nasceu depois e ainda absorvia a cultura pop do período, prepare-se para uma prazerosa e instantânea volta ao passado. Mas, para aqueles que nada viveram do período, a indiferença a esse universo não é uma opção. Nesse caso, prepare-se para a descoberta de um universo rico e muito particular, que, eu tenho certeza, vai te divertir muito.