terça-feira, 27 de dezembro de 2016

As melhores séries de 2016


Se, por um lado, as novas séries que estrearam, em sua grande maioria, "derraparam na curva" e decepcionaram, em compensação, 2016 foi o ano em que muitas produções, que já estão no ar há algum tempo, atingiram o ápice. Isso não quer dizer, no entanto, que não há novas séries entre as melhores, mas as escolhidas foram aquelas que agregaram novas qualidades ao já fértil universo das séries de TV e, com muitos méritos, fizeram a diferença no ano que vai acabando. Vai, então, às 15 melhores produções do ano.

1) GAME OF THRONES

Já na sexta temporada, "Game of Thrones" teve, em 2016, o seu melhor ano de exibição. A resolução de enredos, o cruzamento de histórias e os ganchos deixados para o futuro renderam momentos memoráveis à produção, que só vai voltar no meio do ano que vem. Sequências como a da vingança de Cersei (Lena Headey), uma das mais marcantes de toda a série, e da batalha de Jon Snow (Kit Harington) foram algumas dos destaques do sexto ano, que pode ser considerado "uma temporada de movimento", em que as tramas, mais do que em outros anos, se encaminharam para uma necessária convergência. A boa qualidade só gera ainda mais expectativa para as duas próximas temporadas, que serão as últimas do universo de George R. R, Martin.

2) WESTWORLD

Apesar de poder ser considerado um ano mais fraco para as novas séries, 2016 teve a sensacional primeira temporada de "Westworld", produção da HBO baseada na obra literária de Michael Crichton e no filme homônimo de 1973. A produção de ficção científica é daquelas que "explode" a cabeça do espectador e que exige total atenção aos detalhes da narrativa, extremamente bem amarrada por sinal. Confesso que, após os dez episódios, tentei procurar por "buracos" no roteiro, mas não lembrei de nenhum. A trama do parque temático que abriga inteligências artificiais, definitivamente, veio para ficar e ainda pode render muitos bons momentos com os ganchos deixados para o segundo ano. O elenco, que tem Ed Harris, Anthony Hopkins e o brasileiro Rodrigo Santoro, é muito coeso e importante para o bom resultado da produção.

3) STRANGER THINGS

O revival dos anos 80 provocado pela estreia de "Stranger Things" foi, também, um dos marcos do universo das séries no ano. Personagens carismáticos, uma história instigante e as inúmeras referências feitas a ícones da cultura pop são alguns dos ingredientes dessa equação muito bem-sucedida. O elenco, infantil e adulto, é ótimo, o roteiro é inteligente, construindo uma história universal, e a trilha sonora é uma "viagem" de volta aos anos 80. Além disso, os oito episódios são ideais para fazer aquela maratona de fim de semana, que sempre possibilita uma visão mais completa do todo.

4) AMERICAN CRIME STORY: PEOPLE VERSUS O. J. SIMPSON

Mostrando, pela primeira vez, um lado mais contido, o autor, produtor e diretor Ryan Murphy mostrou que deixar os exageros, comuns em suas produções, e apostar em uma linguagem, digamos, mais séria, pode surtir um bom resultado. Criada para retratar um crime real diferente a cada temporada, "American Crime Story" acertou muito ao retratar o julgamento do caso do famoso O, J, Simpson, acusado de matar a ex-esposa e um amigo dela nos anos 90. Com um roteiro bem construído, boas atuações (John Travolta e David Schwimmer não estão incluídos aqui) e uma ótima ambientação da época, a série refez os acontecimentos e o julgamento de forma bastante satisfatória. Não à toa, a produção vem ganhando muitos prêmios por aí.

5) JUSTIÇA

A autora Manuela Dias acertou muito com "Justiça", série que, a cada dia da semana em que era exibida, contada histórias de injustiças cometidas contra os personagens centrais e que, em dado momento, se cruzavam, nem que isso acontecesse através de detalhes mínimos. A proposta exigiu um cuidado a mais com o roteiro, que conseguiu cumprir com as expectativas. O fato de não procurar caminhos fáceis e óbvios para conquistar o público foi, talvez, seu maior mérito. Além da ousadia na narrativa, as excelentes atuações de Débora Bloch, Adriana Esteves, Jesuíta Barbosa, Drica Moraes, Jéssica Ellen, Vladimir Brichta, Enrique Diaz, Leandra Leal, Julia Dalavia, Cauã Reymond e Antonio Calloni fez toda a diferença para a produção, que contribuiu para elevar os padrões nacionais do gênero.

6) GILMORE GIRLS: A YEAR IN THE LIFE

Entre todas as séries que formam essa lista, talvez a tarefa mais difícil tenha sido a de "Gilmore Girls: A Year in the Life", que, em quatro episódios especiais, trazia a proposta de resgatar um sucesso antigo e já encerrado há alguns anos. Diante de tal missão, o resultado não poderia ter sido mais satisfatório. Com muita inteligência e humor afiado, características marcantes da série original, a produção criou momentos inspirados e boas narrativas para as mulheres Gilmore. Os bons arcos dramatúrgicos das protagonistas se mostraram bem pensados e a transformação das personagens diante dos olhos do público foi especial para a produção. O resgate de personagens carismáticos e situações inspiradas também ajudaram a resgatar o clima da série original. É daquelas que acabam e, logo em seguida, dá vontade de ver de novo!

7) DEMOLIDOR

Em sua segunda temporada, "Demolidor" atingiu uma maturidade interessante em relação às produções da Marvel para o gênero. Apresentada de forma gradativa e crescente, a narrativa do vigilante de Hell´s Kitchen teve enfoque em aspectos bastante subjetivos dos personagens e, muito bem amarrada, agradou. A introdução do Justiceiro, que deve ganhar série própria, e, até mesmo de Elektra, mal inserida no início, mas mostrando boas nuances ao longo da temporada, pode ser considerada um ponto positivo e deu "outra cara" à narrativa. A série ainda reservou uma volta triunfal a um dos melhores personagens: Wilson Fisk, o Rei do Crime, retorna grandiosamente e, ao que parece, para outros bons momentos na produção.

8) NARCOS

O derradeiro desfecho de Pablo Escobar (Wagner Moura) em "Narcos" ficou enfraquecido neste segundo ano, muito por conta da demora para que a trama engrenasse. Mas, pensando no todo, a perda da força do personagem é até justificável, uma vez que a produção precisa mostrar que pode caminhar após a morte do protagonista. Depois de um começo mais lento, a série engrena e é nesse período que mostrou suas qualidades, o que fez com que tivesse espaço nesse ranking. As sequências de ação, que pontuam o fecho do cerco a Escobar, são alguns dos bons momentos da trama. A ascensão, tímida e precisa, de um novo grupo de traficantes, que vai movimentar a próxima temporada, foi outro bom acerto da produção, que, é bem verdade, não terá uma das tarefas mais fáceis do mundo ao ter que sobreviver sem Escobar.

9) HOW TO GET AWAY WITH MURDER

Se você está atrasado e ainda não descobriu quem é o personagem que está debaixo do lençol do necrotério de "How To Get Away With Murder", sugiro que se apresse em descobrir. Depois de uma boa segunda temporada, inferior, porém, à primeira, a série reforçou suas melhores qualidades e, por enquanto, tem construído um terceiro ano bastante interessante. É impressionante a capacidade de reinvenção dessa produção, que poderia ter se esgotado na primeira temporada, mas soube se manter em boa forma. Nem é preciso dizer que o desempenho de Viola Davis continua excepcional e empresta muita força para a produção.

10) THE GOOD WIFE

O que começa em um tapa na cara, precisa terminar com outro tapa. Esse gesto marcou o fim da transformação da advogada Alicia Florrick (Julianna Margulies) e, mesmo que não tenha agradado a todos, é inegável que o fim de "The Good Wife" foi coerente. A protagonista e suas escolhas a encaminharam em uma mudança de personalidade muito bem construída, talvez um dos arcos dramáticos mais bem elaborados da televisão. O texto especial e o elenco de excelentes atores, como Christine Baranski, foram qualidades marcantes da produção, que terá um spin-off a partir do próximo ano.

11) THE BLACKLIST

Raymond Reddington (James Spader) é, sem dúvida, um dos grandes personagens da televisão atualmente. Roteiro e interpretação se mostram em harmonia para construir as nuances desse carismático criminoso, composto de fragilidade e força em igual proporção. Já na quinta temporada e após muitos desdobramentos, "The Blacklist" ainda mostra força com uma história muito bem amarrada, que lança mão de muitas insinuações para alimentar seu enredo. A aposta em dramas de personagens secundários e, é claro, a caça aos famosos bandidos da lista negra de Reddington, são componentes acertados e ainda férteis para o sucesso da produção, que ainda reserva boas surpresas para a temporada atual.

12) BATES MOTEL

A infância do icônico vilão Norman Bates chegou ao ápice na quarta temporada de "Bates Motel", exibida em 2016. A loucura do protagonista, impecavelmente interpretado por Freddie Highmore, chegou ao ponto máximo e, com isso, houve a conclusão da construção da personalidade vista no livro e no filme "Psicose", trama esta que será resgatada na quinta e última temporada, prevista para o ano que vem. É necessário destacar o desempenho irretocável de Vera Farmiga, que faz Norma Bates, a mãe que alimenta a insanidade do filho. As sequências em que Norman tem "apagões" e assume a personalidade da mãe foram especialmente bem executadas nesta temporada, que desenhou um arco narrativo interessante e que pode trazer novidades em relação ao clássico dos cinemas e da literatura.

13) HOUSE OF CARDS

O casal Claire (Robin Wright) e Frank Underwwod (Kevin Spacey) passou por momentos íntimos difíceis na quarta temporada de "House of Cards" Os problemas entre eles foram são bastante coerentes, afinal, duas personalidades tão ambiciosas e interesseiras, uma hora ou outra, iriam colidir. O embate entre o casal foi o ponto alto da temporada, com destaque para os momentos de rebeldia de Claire, que permitiram uma temporada impecável de Robin Wright. O quarto ano ainda teve o desempenho sempre acima da média de Spacey e uma participação forte de Cicely Tyson. Mas, se já eram forte individualmente, o casal descobriu um ponto de convergência e decidiu apostar todas as suas forças em um conflito que pode mantê-los no poder. O que vai acontecer a partir disso? A resposta só na próxima temporada...

14) LUKE CAGE

O universo Marvel das séries ganhou, em 2016, o representante que faltava. A vida no Harlem do indestrutível Luke Cage (Mike Colter) elevou o patamar das produções do gênero. Construindo uma personalidade distinta de "Demolidor" e "Jessica Jones", a série apresentou um estilo narrativo próprio, personagens bem desenhados e um visual marcante. Nem mesmo o ritmo mais lento dos primeiros episódios consegue enfraquecer a história bem construída e pensada para ter um desfecho satisfatório. As atuações de Colter, Mahershala Ali e Alfre Woodard ajudam a dar o tom da trama, que se tornou mais uma produção imperdível da Marvel.

15) THE CROWN


Quem vê a rainha Elizabeth ocupando o trono da Inglaterra há tanto tempo, não imagina como foi a transição da jovem princesa até o mais alto degrau da monarquia britânica. Os efeitos e o "peso" da coroa podem ser vistos em "The Crown", série que acompanha os primeiros momentos de Elizabeth no trono. O roteiro histórico, muito bem contextualizado, é um destaque positivo da produção, que também explora os aspectos pessoais da vida da rainha, como a frustração de seu marido e os conflitos que a coroa pode trazer em suas relações familiares. A série ainda traz um desempenho excelente de John Lithgow, que vive o primeiro ministro Winston Churchill em seus últimos momentos à frente do governo britânico.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

As piores séries de 2016


2016 já está quase sumindo no horizonte e, como sempre, o desejo de fazer listas para relembrar o que passou é praticamente irresistível. No universo das séries, o ano que termina trouxe poucas novas produções consistentes, que pecaram, geralmente, em seus roteiros fracos e mal desenvolvidos. O resultado disso será, futuramente, que veremos pouca coisa que estreou em 2016 prosperando por muitas temporadas. Algumas, inclusive, não vão sair do ano inicial. Confira agora aquelas que, com muito mais defeitos do que qualidades, não conseguiram se salvar do ranking de piores séries de 2016.

1) CONVICTION

Sabe quando uma boa ideia é praticamente jogada no lixo? Então, esse é o caso de Conviction, que estreou alimentando certa expectativa dos fanáticos pelo mundo das séries. Recém-saída de "Agent Carter", que foi cancelada, Hayley Atwell apostou na protagonista dessa produção que mistura casos policiais com a política em Nova York. O problema é que ela apostou muito errado. A história da mulher que leva uma vida inquieta e é obrigada a participar de um grupo de profissionais que revê os casos de presos que alegam inocência é muito mal desenvolvida. O roteiro raso tenta imprimir certa complexidade na personalidade da protagonista e no relacionamento conturbado entre ela e seus companheiros de trabalho, mas só o que consegue é dar a sensação de que os conflitos estão sendo desperdiçados. A série também erra ao buscar alívios cômicos nos momentos errados, o que prejudica o ritmo da produção. O elenco inexpressivo é outro ponto negativo desse equívoco de 2016, com destaque (negativo, claro) para o trabalho de Hayley, que não conseguiu deixar no ar as sutilezas que a personagem tenta imprimir.

2) 3%

"Você é o criador do seu próprio mérito". Essa frase faz parte do discurso de Ezequiel (João Miguel), o homem que comanda uma seleção de jovens que terão um futuro melhor em um mundo dividido entre aqueles que têm tudo e os que não têm nada. Ao que parece, a primeira produção brasileira no catálogo do Netflix esqueceu completamente desse ensinamento. A ficção científica, proposta nova no mercado nacional, não conseguiu se sustentar ao longo dos oito episódios da primeira temporada. O conceito apresentado pelo roteiro, que traz muitas falhas, diga-se de passagem, não se reflete em imagem e a produção não consegue imprimir a ideia futurística que deseja. A construção da personalidade de alguns dos jovens que buscam uma vida melhor na comunidade "Maralto" não convence em muitos momentos e revela "buracos enormes" no roteiro. As poucas qualidades da produção, como o ótimo desempenho de João Miguel, ficam ofuscadas pelas falhas. Espero que a segunda temporada, já confirmada pelo Netflix, consiga se recuperar.

3) QUEEN OF THE SOUTH

A brasileira Alice Braga foi a escolhida para protagonizar essa adaptação da novela "La Reina del Sur", produzida pela rede Telemundo com foco no público latino. A série acompanha a trajetória de uma mulher que se torna uma poderosa traficante de drogas. A transformação do enredo em seriado não eliminou defeitos que podem ser vistos facilmente em folhetins, como a ausência de sutilezas na construção dos personagens e dos dramas. O resultado se assemelha a um "dramalhão mexicano", no pior sentido da expressão, com um roteiro cheio de exageros. Até mesmo as caracterizações e as cenas de ação são marcadas por esse tom "over". É sofrível de assistir.

4) BULL

Baseada em uma história real, "Bull" é outra série do ano que decepciona... e muito! A trama do advogado especialista na análise de jurados em julgamentos criminosos não empolga desde o primeiro episódio. Além das histórias secundárias mal exploradas e pouco interessantes, a série peca por flertar com a construção de uma personalidade complexa do personagem, que nunca se apresenta de fato. Essa superficialidade enfraquece quase que totalmente a trama da produção, toda focada no protagonista e sem coadjuvantes que possam contribuir com ela. Certamente, não deixará saudade quando sair do ar.

5) THE CATCH

Esta série nasceu com as expectativas de ter sido criada pelos produtores executivos dos sucessos "Grey´s Anatomy", "Scandal" e "How To Get Away With Murder", mas se mostrou de qualidade bastante inferior a elas. "The Catch" traz uma investigadora de fraudes que não consegue enxergar que está sendo enganada pelo próprio noivo, que planeja um grande golpe e usa a companheira para atingir seu objetivo. A trama, que recorre a elementos comuns em outras produções, não engrena nunca e torna a relação "gato e rato" do casal cansativa e pouco atraente. A protagonista, a atriz Mirelle Enos, pouco carismática, em nada ajuda o desenvolvimento da história, que também traz coadjuvantes inexpressivos.

6) LETHAL WEAPON

Adaptação do sucesso cinematográfico "Máquina Mortífera", a série traz Damon Wayans e Clayne Crawford como a nova dupla de policiais pronta para combater o crime. Se ficasse apenas na linha ação, explosões e perseguições, "Lethal Weapon" estaria mais condizente com sua proposta inicial e não estaria aqui. Mas, a série se "aventura" em tentar imprimir alguma complexidade ao drama dos personagens, mas fica pelo meio do caminho e soa apenas superficial. Esse, aliás, parece ser o problema da maioria das séries que estrearam na temporada. Como ação, "Lethal Weapon" não se daria tão mal, mas os criadores escolheram fazer um "papelão" com essa complexidade forjada e o resultado, infelizmente, é esse.

7) MACGYVER

Outra adaptação, desta vez de um sucesso da televisão entre os anos 80 e 90, não rendeu bons momentos em 2016. "MacGyver", a história do agente secreto de uma agência desconhecida, não mostrou ter criatividade para se reinventar. A trama deixa a clara impressão de datada, parada no tempo mesmo, e nem mesmo a tecnologia utilizada pelo personagem deixa o enredo mais moderno. A série ainda é sustentada por histórias bobas e óbvias, repletas de clichês narrativos que não animam nem o mais empolgado dos espectadores, Mais um erro do ano.

8) FEED THE BEAST

A premissa parecia promissora, mas o resultado foi muito fraco e a série já foi cancelada pelo canal norte-americano AMC. Remake de uma série dinamarquesa, a produção norte-americana trouxe David Schwimmer, o eterno Ross de "Friends", no papel de um viúvo que cria o filho após o trauma do atropelamento da esposa. A vida do protagonista é afetada pela chegada de um chef viciado em drogas, que é perseguido pela máfia. Os dois, então, decidem unir suas habilidades para realizar um sonho e abrir um restaurante. Com um desempenho bem abaixo do esperado, o roteiro mostrou ser bastante fraco e sem possibilidade de crescer. Os atores, se não estavam mal, também não contribuíram em nada com a trama, que, antes mesmo da decisão do canal, já parecia ter o fim anunciado.

9) NOTORIOUS

Como já disse anteriormente, e sendo obrigado a me repetir, a superficialidade esteve muito presente em 2016 e, mais uma vez, prejudicou uma boa ideia. "Notorious", série que mostra a relação entre uma produtora de um programa jornalístico e um advogado, que se ajudam em busca de notícias e casos interessantes, não engrenou. Se tivesse uma abordagem mais madura, com certeza, poderia ter um resultado diferente. Mas, as escolhas por subaproveitar o tema no roteiro e recorrer a clichês e até a um mistério desnecessário, fizeram com que a produção ficasse só na promessa. Uma série que, se fosse pensada para a televisão a cabo, poderia ter tido um resultado bem mais interessante.

10) THIS IS US

Queridinha de muitos, "This Is Us" é a história de uma família, contada fora da ordem cronológica, que conseguiu uma inexplicável indicação ao Globo de Ouro. Superestimada, a série, em momento nenhum, mostra que faz jus a isso. O roteiro é morno, traz poucos elementos capazes de aguçar a curiosidade do público e nem mesmo a surpresa final do primeiro episódio é capaz de deixar alguma vontade para acompanhar os próximos capítulos dessa família. É difícil imaginar como uma série assim pode crescer e ir além de uma temporada, mas a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood parece discordar e ver qualidades para colocá-la entre as melhores do ano. 

11) LIGAÇÕES PERIGOSAS

Coerência é fundamental para qualquer boa história, mas "Ligações Perigosas" decidiu passar longe dela. Escrita por Manuela Dias, inspirada no clássico de Choderlos de Laclos, a série trouxe uma produção caprichada e ótimos atores, mas foi prejudicada pela forma como foi contada. Uma história sensual como essa não poderia nunca ter sido retratada com o recato visto, mesmo sendo uma trama de época. A tensão sexual, que permeava todas as relações entre os personagens, foi sublimada e perdeu a força que a história precisava. No fim, acabou soando incoerente e, mesmo com boas qualidades, não atingiu o resultado que poderia e terminou enfraquecida pela ausência do principal elemento pedido pelo enredo: a sensualidade. Pela incoerência, acabou por aqui.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Episódios especiais de "Gilmore Girls" resgatam humor afiado e inteligência da série original


O componente emocional é um ponto muito importante quando produtores decidem resgatar uma série que fez sucesso no passado. Mas, o apelo e os sentimentos que histórias e personagens despertam no público podem não ser suficientes se não houver inteligência para conduzir o projeto. Por isso, sempre que há algum anúncio de resgate de seriado, uma expectativa grande é alimentada pelos fãs da atração. A volta de "Gilmore Girls", muito aguardada, também foi cercada por essas incertezas, mas após uma maratona com os quatro episódios especiais produzidos pelo Netflix, é possível dizer que houve inteligência de sobra para a condução da empreitada.
"Gilmore Girls: A Year in the Life" retoma a história de Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) após sete temporadas e uma conclusão que deixou muitos fãs "querendo mais". Agora, a criadora da atração, Amy Sherman-Palladino, ganhou a oportunidade de mostrar como as personagens ficaram após o desfecho do seriado exibido entre 2000 e 2007. Os episódios ganharam uma duração maior, em torno de uma hora e meia, e retrataram exatamente um ano inteiro na vida das protagonistas, passando pelas quatro estações: inverno, primavera, verão e outono.
Na trama desenhada pela criadora, Lorelai, Rory e a matriarca Emily (Kelly Bishop) estão passando por momentos muito particulares. A mais velha das Gilmore enfrenta o luto pelo marido Richard (Edward Herrmann), falecido recentemente. O casamento compartilhado por mais de 50 anos faz com que Emily se sinta perdida e repense diversos aspectos de sua vida. Conhecida pela rigidez com a família, com as regras de etiqueta e com os empregados que trabalham em sua casa, e que eram trocados constantemente por insatisfação, a personagem passa por mudanças profundas causadas pela morte do marido. A transformação de Emily, que descobre novos prazeres e contornos para a vida, é a mais interessante e comovente dos episódios.
Rory é outra que tem que lidar com questões e conflitos transformadores. A jornalista, depois de alguns artigos bem sucedidos publicados em importantes veículos, passa a levar uma vida errante, sem endereço ou emprego fixo. Se recusando a dizer que voltou definitivamente para a cidade de Stars Hollow, a jovem "pula de casa em casa" distribuindo seus pertences e revendo pessoas importantes em sua vida. O foco em um projeto para escrever um livro faz com que ela viaje constantemente para Londres, onde encontra secretamente com Logan (Matt Czuchry), seu ex-namorado. Os dois passam a viver um relacionamento "sem compromisso", o que faz com que Rory ignore a existência da noiva dele. Um poético reencontro com sua profissão, um promissor projeto literário e uma conclusão em sua história amorosa fazem com que a personagem possa, finalmente, focar em sua trajetória.
A espirituosa Lorelai segue fazendo sucesso à frente da pousada Dragon Fly e feliz no relacionamento com Luke (Scott Patterson). No campo profissional, no entanto, as incertezas ganham força com a ameaça de perder o gerente Michel (Yanic Truesdale), que está instigado a alçar outros voos. A possibilidade de perder o funcionário/amigo desestrutura a protagonista, que ainda lida com a ausência de Sookie (Melissa McCarthy), que deixou a amiga para viver uma nova experiência profissional. No lado sentimental, Lorelai passa a questionar a regularidade da relação com Luke, o que faz com que ela precise de um tempo para si mesma. Na volta, ela descobre que o casal precisa mesmo é oficializar a parceria e propõe casamento ao companheiro, que aceita.
Nos quatro novos episódios, "Gilmore Girls: A Year in the Life" resgata as melhores características que a série original tinha. A primeira, e fundamental, é o texto rápido e muito inspirado. Nos diálogos, especialmente entre Lorelai e Rory, há sempre uma admirável precisão de palavras, um ritmo frenético e referências inteligentes sobre cultura e política, que deixam as cenas mais prazerosas de acompanhar. Ainda sobre o texto, é preciso dizer que o argumento e os arcos dramatúrgicos das três personagens centrais são construídos de forma primorosa, mesclando comédia, drama, sutileza e força na medida certa, sem qualquer excesso ou "nota fora do compasso".
Os personagens secundários sempre foram um dos charmes de "Gilmore Girls" e a maior parte deles retorna para momentos divertidos. Kirk (Sean Gunn) continua apostando em empreitadas mirabolantes, Taylor (Michael Winters) ainda enlouquece a cidade com seus exageros, Babette (Sally Struthers) continua estridente e Paris (Liza Weil) está ainda mais Paris. Tudo isso deixa Stars Hollow ainda mais encantadora e engraçada. Vale destacar a inclusão de um "bar secreto" na cidade, que proporciona uma cena hilária.
Diante disso, só dá para concluir que "Gilmore Girls: A Year in the Life" foi uma das melhores coisas que aconteceu no mundo das séries em 2016. Tudo foi resgatado: o humor afiado, a inteligência da narrativa e os personagens cativantes. A atração também ganhou novas cores e contornos, que deixaram o seriado ainda mais charmoso. Para quem acompanhou a série original, sem dúvida, é uma grande retomada e, para quem nunca viu, um estímulo para conhecer a vida em Stars Hollow.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

65 Anos de Novelas - Dez folhetins que renovaram o gênero na última década


O ano de 2016 marca o aniversário de 65 anos da exibição das telenovelas no Brasil, uma trajetória que começou em dezembro de 1951, com a exibição de "Sua Vida me Pertence" na TV Tupi. Desde então, o formato, que caiu nas graças do público, foi se transformando. No início, eram apenas dois capítulos por semana e, por não existir o recurso do videotape, os folhetins eram exibidos ao vivo. Depois disso, vieram as tramas diárias, inauguradas por "25499-Ocupado", e muitas outras inovações, que deram origem a folhetins emblemáticos, como "Roque Santeiro", "Vale Tudo", "A Próxima Vítima", "Laços de Família" e "Senhora do Destino".
Por conta dessa data, comecei a pensar no que escrever. Lembrei que, há cinco anos, fiz uma postagem sobre as melhores novelas já feitas. Para não me repetir, já que a opinião não mudou muito nesse período, decidi que iria elencar quais foram, na última década, os folhetins que trouxeram algum tipo de renovação ao gênero. 
Achei que a intenção é pertinente, uma vez que a telenovela passa por um momento de intensa transformação. A internet, os serviços de streaming e a força das séries, especialmente as internacionais, têm provocado constantes questionamentos sobre o futuro do folhetim, que anda tendo sua "fórmula" (se é que há uma) contestada por novos formatos de entretenimento. Diante disso, será que a telenovela pode ter algum futuro? Abaixo, alguns exemplos de tramas que propuseram mudanças e podem ajudar a desenhar os caminhos do gênero para os próximos anos.

1) A FAVORITA (2008)

Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia) formavam a dupla sertaneja de sucesso "Faísca & Espoleta". As amigas, que cresceram juntas, sempre foram inseparáveis até se apaixonarem pelo mesmo homem. Esse amor culminou em um crime, que fez Flora ficar 18 anos presa. Mesmo com a condenação, ainda havia dúvidas sobre a autoria do crime, já que as versões da presa e de Donatela eram diferentes. Afinal, então, quem estava dizendo a verdade? O argumento do autor, João Emanuel Carneiro, de não revelar a verdade sobre o crime e sustentar os acontecimentos apenas pelas versões das protagonistas foi a grande contribuição de "A Favorita" ao gênero. Sem revelar a verdade, inclusive sobre a identidade da "mocinha" e da "vilã" do folhetim, o roteiro apostou na ambiguidade das personagens durante os dois primeiros meses, quando, finalmente, descobriu-se que Flora era a grande culpada de tudo. O público, é claro, estranhou a proposta e cobrava o tradicional maniqueísmo na história. No fim, a espera valeu a pena e "A Favorita" fez bonito.

2) CORDEL ENCANTADO (2011)

Nunca houve nenhuma regra sobre o tipo de trama que mais cativa o público, mas, durante, um tempo, convencionou-se dizer que as novelas precisavam ser mais focadas na realidade para agradar. Por isso, durante um período, a fantasia passou longe dos folhetins brasileiros. Isso foi quebrado pelas autoras Duca Rachid e Thelma Guedes, que convidaram os espectadores para viajar a um reino muito distante, mas que acabava se envolvendo com características muito próprias do Brasil. Assim, "Cordel Encantado" inovou ao unir histórias de reis e princesas com o cangaço brasileiro, passando, também, por diversas referências de contos de fada. O resultado, uma mistura de monarquia europeia com os elementos mais fascinantes do Nordeste do nosso país, cativou o público e mostrou que o folhetim pode (e deve!) sair da zona de conforto e apostar na fantasia, desde que, para isso, haja um roteiro consistente e uma direção primorosa com a linguagem e os detalhes. Nunca reis e cangaceiros conviveram de forma tão inspiradora.

3) CHEIAS DE CHARME (2012)

Já ouvi alguns escritores experientes dando o seguinte conselho aos aspirantes a autor: "leia os clássicos". Isso pode ser aplicado, dadas as devidas proporções, ao gênero das novelas. Um dos caminhos para o folhetim seja, talvez, saber modernizar um clássico e transformá-lo em algo mais atual e atraente para o público. O tradicional enredo do "protagonista humilde que passa por uma transformação e vence na vida" ganhou novos contornos com "Cheias de Charme", de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. A história das empregadas domésticas que se descobrem cantoras e alcançam o estrelado não era uma novidade, mas foi contada de uma forma nova. Aqui, as protagonistas, mesmo com traços de "Cinderela", tinham bases mais reais e falavam a uma categoria pouco retratada no primeiro plano das novelas. O folhetim recebeu, ainda, influências digitais, acrescentando discussões sobre o mundo da internet ao enredo. Despretensiosa, a divertida trama acabou abrindo novos horizontes para um gênero que, até hoje, procura entender o público.

4) AVENIDA BRASIL (2012)

Mesmo sendo um prato que se come frio, a vingança sempre foi um importante ingrediente para a ficção. Do clássico "O Conde de Monte Cristo" ao seriado "Revenge", essa reação foi uma constante geradora de conflitos entre personagens. Por conta disso, as novelas também não poderiam ignorar esse recurso, que pode gerar boas histórias. Mas, se a vingança é tão comum, o que pode torná-la inovadora e atrativa ao público atual? A resposta está em "Avenida Brasil", de João Emanuel Carneiro. A vingança de Rita (Débora Falabella) contra Carminha (Adriana Esteves), amparada por um roteiro inteligente, fez com que um "clássico" se transformasse em algo capaz de cativar um público de noveleiros que, praticamente, já viu de tudo. Isso sem contar o fato de que o folhetim trouxe para o centro da cena personagens e tipos comuns a uma fatia média da população, que, até então, sempre ficava restrita a coadjuvantes. Também pode ser considerada uma "novidade" para o gênero o fato de que a novela trouxe, ainda, personagens que questionam, em diversas oportunidades, o habitual maniqueísmo presente no gênero.


5) O REBU (2014)

Aqui, mais uma vez, o argumento não é novo. Remake de uma versão de 1974, escrita por Bráulio Pedroso, a segunda versão de "O Rebu" veio com uma nova proposta: contar uma história de forma não-linear, que se construía peça a peça, como um quebra-cabeça. Assim, o público era apresentado a um corpo que aparecia boiando em uma piscina, após uma badalada festa da alta sociedade. Aos poucos, são revelados os suspeitos e as motivações que poderiam "justificar" o crime. Para isso, o roteiro da história, que se passa toda em uma noite, vai e volta no tempo, forçando o espectador a juntar as informações e criar o cenário completo na cabeça. Com um roteiro pouco comum entre os folhetins, "O Rebu" ainda bebeu da fonte estética da linguagem dos seriados e quase pode ser vista como um "híbrido". Ainda há o fato de que a trama foi concebida para o recente horário das 23 horas, que permite uma narrativa mais condensada, madura e um número reduzido de capítulos. Sem dúvida, mais um bom caminho a ser explorado daqui para frente. 

6) MEU PEDACINHO DE CHÃO (2014)

O diretor Luiz Fernando Carvalho é, sem dúvida, um inovador do audiovisual. Entre seus feitos, o profissional realizou "fusões" de gêneros e, assim, criou uma linguagem muito característica. Já tendo unido a televisão e o teatro na série "Hoje é Dia de Maria", Carvalho optou por levar essa proposta para as novelas e, diante de um remake do autor Benedito Ruy Barbosa, criou um universo lúdico e muito inusitado para um folhetim televisivo. Com elementos lúdicos, cores vibrantes e contando com a imaginação do público, o diretor fez da segunda versão de "Meu Pedacinho de Chão" uma agradável novidade. A aparência infantil dos cenários, figurinos e, até mesmo, na interpretação dos atores se mesclou a temas adultos relacionados a poder e cidadania. Assim, um universo que poderia, facilmente, estar apenas na cabeça de um menino se transformou em uma divertida e inspirada novela, que pode render bons frutos futuramente. 

7) SETE VIDAS (2015)

Já ouvi que não há novela sem vilão. Isso se justificaria porque é o antagonista o único responsável por criar os conflitos nas tramas. Levando essa teoria em consideração, chegaríamos à conclusão de que um folhetim só é possível se houver um vilão. Só que a autora Lícia Manzo conseguiu provar que isso não é uma regra. Em "Sete Vidas", ao invés de um vilão, os conflitos do folhetim eram criados por um outro "personagem": a vida. Baseada nas relações humanas, a novela contava com o desenrolar dos acontecimentos do cotidiano para criar amores, traições, dilemas morais, rivalidades, inveja e afeto. O tom naturalista da trama, que buscava inspiração no dia a dia, não deixou devendo em nada a mais elaborada das fantasias. Essa aposta fez com que a autora investisse em diálogos mais elaborados e cenas mais extensas, que deixavam o espectador vidrado em frente à telinha, mesmo que tenha se tornado mais recorrente ouvir que o público quer, hoje, mais agilidade das histórias.

8) ALÉM DO TEMPO (2015)

Novelas divididas em fases existem aos montes. Os prólogos são, geralmente, utilizados para explicar conflitos que, lá na frente, irão se desenrolar. Outra característica é que as fases iniciais de um folhetim costumam durar poucos capítulos. Melhor dizendo: costumavam durar poucos capítulos. Isso mudou quando a autora Elizabeth Jhin fez "Além do Tempo". A trama, de temática espírita, falava sobre as relações e conflitos entre personagens em dois períodos: no século XIX e nos dias atuais. Na primeira fase, que durou cerca de 80 capítulos, eram apresentados os dilemas e dramas dos personagens, que traziam consequências para a segunda fase da trama, quando as almas já estavam reencarnadas. Apesar de ter uma trama até bastante tradicional, o folhetim deixou seu lado ousado para a narrativa, que acabou criando "duas novelas" e um novo cenário para o público, que sempre esteve acostumado a não se "apegar" tanto ao prólogo das novelas.

9) A REGRA DO JOGO (2015)

A figura do anti-herói, muito comum no cinema e nos seriados, demorou para chegar às novelas. Mesmo assim, na última década, tivemos alguns folhetins que exploraram esse tipo de personagem, como "Cobras & Lagartos" e "Império". Nenhum deles, no entanto, foi tão à fundo nesse objetivo como "A Regra do Jogo", de João Emanuel Carneiro. O protagonista, Romero Rômulo (Alexandre Nero), era um ex-vereador envolvido em causas humanitárias, mas que, na verdade, usava esse tipo de personalidade para disfarçar o seu envolvimento com uma poderosa facção criminosa. Durante todo o folhetim, Romero viveu em conflito com suas escolhas, o que fez com que a construção da personalidade do personagem passasse longe dos tradicionais conceitos de "bem" e "mal". Da mesma forma, a "mocinha" Tóia (Vanessa Giácomo) e a "vilã" Atena (Giovanna Antonelli) tinham atitudes que contestavam o tradicional maniqueísmo a que esses tipos de personagens sempre ficaram "aprisionados".

10) VELHO CHICO (2016)

Recém-encerrada no horário das 21 horas da TV Globo, "Velho Chico" pode ser considerada um dos exemplos mais completos de renovação do folhetim, sem que o mesmo perca as características que o marcaram. Com um enredo tradicional, baseado em amores proibidos e conflitos entre famílias rivais, a trama de Benedito Ruy Barbosa apostou na inteligência do público para trazer de volta os debates políticos e sociais ao horário nobre da televisão aberta. Com a contribuição impecável do diretor Luiz Fernando Carvalho, o folhetim inovou em estética, edição e fotografia, misturando movimentos e conceitos de arte e entretenimento. As reflexões propostas pelo texto (e pelo subtexto) criaram momentos antológicos da televisão e mostraram que uma novela pode sair da superficialidade e levar algo mais substancial ao espectador. É claro que, com uma proposta como essa, houve estranhamento por parte do público, mas uma experiência como essa foi muito importante a história da televisão brasileira. "Velho Chico" mostrou, principalmente, que poesia, seja ela falada ou visual, pode ter um espaço definitivo na teledramaturgia diária. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Luke Cage reforça coerência do universo Marvel e eleva o patamar das produções do gênero

Nova York é uma cidade muito grande e, por conta disso, o mal se apresenta em diversas formas e em lugares variados. Enquanto, em Hell´s Kitchen, um homem com fama de "demônio" e uma mulher incrivelmente forte tentam controlar aqueles que querem dominar a região, em outro canto da cidade, um novo "vigilante" surge para proteger a população. O cenário agora é o Harlem e o protetor em questão é Luke Cage (Mike Colter), o protagonista da última série lançado pelo Netflix sobre o universo Marvel. E, mais uma vez, repetindo o êxito das anteriores, a produção é digna de elogios pela coerência e qualidade visual, mesmo carregando um ou outro escorregão.
Cage, depois de uma passagem por Hell´s Kitchen em "Jessica Jones", se instalou no Harlem, onde arrumou um apartamento alugado e um emprego na barbearia de Pop (Frankie Faison), além de encarar um segundo turno de trabalho como lavador de pratos na boate Harlem´s Paradise. O local é gerenciado por Cornel Stokes (Mahershala Ali), mais conhecido como "Boca de Algodão", que também é responsável pelo tráfico de armas e por uma das facções que comandam a região. 
Stokes mantém uma aliança com a prima Mariah Dillard (Alfre Woodard), uma vereadora que, com um projeto de fachada para preservar o Harlem, ajuda e se beneficia das transações do primo, mesmo que diga não "sujar as mãos" com o trabalho. Um conflito, iniciado por um roubo, acaba cruzando os caminhos de Cage e Stokes e provocando uma medição de forças na região. 
A "guerra" se torna mais desafiadora para Stokes quando é revelado que Luke Cage não é um homem qualquer. Vítima de uma experiência enquanto esteve preso no passado, ele possui uma pele impenetrável, capaz de resistir a quaisquer golpes, armas ou facas. Descobre-se, porém, que uma munição conhecida como "Bala de Judas" pode perfurar a pele do novo herói do Harlem. Quem coloca o plano em prática, no entanto, é Willis Stryker (Erik LaRay Harvey), o temido Kid Cascavel, que assume a investida contra Cage e, inclusive, mostra ter assuntos inacabados do passado com ele. No meio da disputa entre as forças do Harlem, ainda há a corrupta polícia do bairro, contaminada pela influência de Stokes, mas que preserva bons talentos no combate ao crime, como a detetive Misty Knight (Simone Missick).
Após os êxitos de "Demolidor" e Jessica Jones", é possível dizer que a parceria Netflix/Marvel rendeu mais um bom fruto. "Luke Cage" sobe um degrau no gênero e traz uma narrativa com novos contornos e um visual marcante. O roteiro segue o estilo narrativo das outras produções do gênero, em um ritmo próprio e impossível de ser comparado com séries que não façam parte do mesmo universo criativo. As tramas são bem amarradas, os ganchos são muito eficientes e os personagens bem desenhados.


É importante dizer que "Luke Cage" mantém o inteligente diálogo entre as produções da Marvel, seja no cinema ou na televisão. Há referências a filmes, como "Vingadores", e um canal direto e coerente com as séries produzidas pelo Netflix. A estética da série também "conversa" com "Demolidor" e "Jessica Jones", mas apresenta características novas, como os tons amarelados e escuros da fotografia. A trilha sonora também é excelente.
Há, no entanto, algumas escorregadas, que não chegam a prejudicar de forma definitiva a série, mas, de qualquer forma, estão ali. A história demora a engrenar, caminhando em círculos nos três primeiros episódios. Quando o passado de Cage é contado, em flashback, a narrativa se impõe mais interessante e os conflitos conseguem, finalmente, caminhar. Quando a trama se direciona para mostrar uma ligação entre Cage e Kid Cascavel, o roteiro ganha um tom, por vezes, piegas, que enfraquece ligeiramente o enredo. Mesmo assim, como dito antes, são tropeços que não comprometem o resultado final do produto.
Os vilões Cornel Stokes e Mariah Dillard merecem destaque entre os personagens da série, especialmente a segunda, que, justiça seja feita, desde o início se mostra interessante, mas ganha força quando passa a ser a "cabeça" do grupo criminoso do primo. O grande mérito disso, além do roteiro, é da atriz, que explora muito bem os conflitos internos da vereadora, que tenta abafar seu "lado obscuro", que a conecta com a mulher que a criou. Ainda vão bem Mike Colter, Frankie Faison, Simone Missick e Rosario Dawson, que volta com a enfermeira Claire, presente nas outras produções.
Diante de erros que, nem de longe, alcançam os acertos, a primeira temporada de "Luke Cage", com treze episódios, se mostra uma importante peça do universo Marvel no Netflix. O caminho fica, agora, ainda mais fortalecido para "Punho de Ferro" e "Os Defensores", produção que irá reunir as quatro tramas anteriormente apresentadas. Tudo isso só vai mudar se houver um desvio muito brusco em relação ao que já foi apresentado. Pelo menos até aqui, esse não foi o caso.

LUKE CAGE (primeira temporada)

Onde: Netflix - todos os episódios disponíveis

Cotação: ótima

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Safra de novas séries surge enfraquecida e é incógnita para prosperar

Assim como a volta das séries já conhecidas do grande público, esse período do ano também traz uma safra de novas produções que buscam um lugar na, cada vez mais disputada, programação da televisão americana. Pulsante e muito criativo nos últimos anos, o mercado de séries passou a abrigar, neste ano, novas produções que se mostram mais fracas e menos instigantes do que as que surgiram em anos anteriores. Clichês, adaptações e histórias superficiais dão o tom de algumas dos programas que buscam "um lugar ao sol". A seguir, reúno as principais estreias da temporada na televisão americana e uma opinião sobre cada um delas, o que não quer dizer que isso seja uma "sentença de morte" para elas, que ainda têm bastante tempo para se recuperar, se for o caso.

1) Designated Survivor (ABC)

O eterno Jack Bauer está de volta, agora como presidente dos Estados Unidos. Em "Designated Survivor", Kiefer Sutherland é Tom Kirkman, o secretário de Habitação do governo federal na terra do Tio Sam. Ele é escolhido como o representante do governo que ficará protegido, em local desconhecido, durante o famoso discurso do Estado da União, feito pelo presidente, um procedimento padrão de segurança para dar continuidade ao governo em caso de um atentado. Durante o evento, o Capitólio é vítima de um atentado que mata todos os representantes do governo, o que torna Tom o novo presidente do país. Pego de surpresa e, aparentemente, sem o perfil ideal para o cargo, ele precisa lidar com os desafios que a nova função lhe impõe. "Designated Survivor" é uma das melhores séries da nova safra, mas peca por não apostar em novidades, escolhendo caminhos narrativos conhecidos e seguros. A trama de conspiração interna para prejudicar o governo, vista em outras produções, não empolgou logo de cara. Kiefer Sutherland também não diz a que veio no início da série.



2) Pitch (FOX)

Assim como a anterior, "Pitch" mostrou-se uma das melhores novas séries que estrearam. A história acompanha a ascensão de Ginny (Kylie Bunbury), que carrega a responsabilidade de ser a primeira mulher arremessadora a ser escalada para um grande time de beisebol. Na sua chegada para o campeonato, ela lida com muita pressão e preconceito em torno de sua atuação. Diante dos olhares do público, dos jogadores e da direção do time, ela busca forças no passado para superar as dificuldades e conta com a ajuda dos ensinamentos do pai, responsável pelo treinamento e pelo desejo de ver a filha se tornar uma grande jogadora. "Pitch" traz uma trama diferente e interessante, com bons elementos e uma surpresa, no primeiro episódio, que impressiona. A série, no entanto, parece ter pouco espaço para um crescimento da narrativa, que leve a história para outros pontos. Resta, agora, acompanhar e esperar.



3) Notorious (ABC)

O enredo é dos mais interessantes, mas a abordagem superficial deixa muito a desejar. Esse é o resultado de "Notorious", outra série que estreou nesta temporada. A trama aborda a produção de um programa jornalístico, comandada por Julia George (Piper Perabo). Com a ajuda do famoso advogado Jake Gregorian (Daniel Sunjata), ela leva ao público as principais notícias e casos interessantes, utilizando, para isso, métodos traiçoeiros e pouco ortodoxos de manipulação de mídia, que também servem a seu parceiro na esfera jurídica. Inspirada em um história real, "Notorious" é o clássico caso de série certa, com a abordagem errada. O bom tema se mostra subaproveitado e superficial, caindo até em alguns clichês e se aproveitando de um mistério desnecessário. Se fosse uma série de televisão a cabo, talvez a qualidade fosse outra.



4) Bull (CBS)

Também baseada em uma história real, "Bull" não empolga logo de cara. A produção traz o advogado Jason Bull (Michael Weatherly) e a abordagem inusitada que o profissional tem para conduzir seus casos. Com uma moderna estrutura, ele é especialista em analisar os jurados e, com isso, entender quais as chances de vencer no tribunal. Ele exige "carta branca" para controlar a conduta do cliente, desde a vestimenta até os gestos que devem ser feitos diante do juri. Assim como outras dessa nova safra, "Bull" peca pela superficialidade. A estreia não diz nada e ensaia uma complexidade na personalidade do protagonista, que não deve salvar a produção.



5) MacGyver (CBS)

Uma série que começa errada, dificilmente consegue se recuperar. Alguém decidiu reviver o clássico personagem MacGyver, sucesso entre os anos 80 e 90. Até ai, tudo bem. O problema é que esqueceram de modernizar a narrativa e trazer novos elementos para a produção. A trama do agente que trabalha em missões secretas para o governo, em um departamento desconhecido até pelo FBI e para a CIA, definitivamente não empolga. É uma série datada, cujos roteiristas parecem não ter tido criatividade para transportá-la para os dias atuais. Nem mesmo a tecnologia adotada nos procedimentos faz com que o público se sinta em uma história atual. Isso sem falar nos clichês narrativos, que só prejudicam a série. Ao que parece, as habilidades impressionantes de improviso de MacGyver não foram suficientes para os dias atuais. Sem um bom roteiro, não se vai muito longe.



6) This is Us (NBC)

Será que existe alguma conexão especial e inexplicável entre pessoas que nasceram no mesmo dia? Bom, honestamente, vendo "This is Us", não dá nem vontade de descobrir. Apesar de um surpresa no fim do primeiro episódio, esta é mais uma produção nova que não empolga. A narrativa do início até que é boa, contando histórias diferentes sem determinar períodos ou conexão. Há, no entanto, à primeira vista, uma tremenda falta de elementos que agucem a curiosidade do público para um próximo episódio. O enredo, num primeiro momento, também parece pouco engessado e sem grandes possibilidades de crescer. Quem sabe possa ter algum êxito se for construída como uma antologia, trazendo uma trama diferente por temporada. Mesmo assim, talvez nem prospere nesse nível...



7) Lethal Weapon (FOX)

Mais uma adaptação, desta vez do sucesso cinematográfico de ação "Máquina Mortífera". A série traz Damon Wayans (de "Eu, A Patroa e as Crianças") vivendo o policial cinquentão Roger Murtaugh, que está voltando ao trabalho depois de um problema cardíaco. No retorno, ele descobre que terá um novo parceiro, o policial Martin Riggs (Clayne Crawford), um homem traumatizado pela morte da esposa grávida e que, por isso, parece "procurar" a morte. A partir daí, seguindo a linha cinematográfica, surgem muitas explosões, perseguições e tiros na busca por resolver os crimes em Los Angeles. Como gênero de ação, apesar de não ser nenhuma maravilha, "Lethal Weapon" não se dá mal, mas como trama deixa muito a desejar. A superficialidade (ela de novo!) constrói mal o drama dos personagens e até forja certa profundidade na personalidade dos personagens. É, como quase todas as séries dessa leva, uma incógnita.